Sábado, Março 13, 2010

Será este tipo de 'estatística' o caminho certo?


... ou talvez o caminho mais fácil (e também um dos mais falaciosos) para certas finalidades?
Prefiro, claramente, uma posição mais sensata e inteligente, como a de Fernando Pacheco em relação à matéria (anónima) publicada pelo Semanário Angolense no passado mês de Fevereiro.


Porquê a supremacia dos Kimbundu?
Por Fernando Pacheco
In, Semanário Angolense, nº 357, 06 de Março de 2010

Pediu-me o amigo Graça Campos para me pronunciar sobre a questão titulada, na sequência do artigo* publicado na edição de 27 de Fevereiro de 2010 do Semanário Angolense, que nos habituou a dar à estampa temas ousados, normalmente considerados tabu na nossa sociedade, o que é bastante positivo. Porém, nem sempre estou de acordo com a forma como tais temas têm sido abordados. Aproveito, pois, a oportunidade, pois acho que deste modo, com recurso ao contraditório, poderemos ir construindo um verdadeiro espaço público, onde se manifestem, de forma descomplexada, opiniões não convergentes que poderão ajudar os cidadãos a formar a sua opinião. Um exemplo que os órgãos de comunicação social públicos, por maioria de razão, deveriam seguir.

A leitura do artigo suscitou-me alguns comentários, forçosamente limitados pela natureza do artigo e pelo espaço. Desde logo, o entendimento sobre conceitos como ‹‹etnia››, ‹‹tribo››, ‹‹pertença étnica›› e outros relacionados. Com quase trinta e cinco anos de poder de um partido como o MPLA, cujo discurso nacional (por oposição a regional) é bastante apreciado, é confrangedor constatar o baixíssimo nível de desenvolvimento das ciências sociais, e, consequentemente, um enorme desconhecimento da nossa história e da realidade social do país. Por tal razão, continuamos a falar de tribos e etnias, e até mesmo de raças, sem termos em conta os avanços científicos universalmente aceites nesses domínios.

O trabalho de José Redinha sobre etnias de Angola com um mapa de distribuição étnica, que teve alguma importância na época da sua publicação (anos 70 do século passado), hoje não faz sentido. Com efeito, não se pode pensar que as pessoas que se reconhecem como integrantes de uma determinada comunidade etnolinguística (considero esta terminologia mais correcta que etnia ou tribo) tenham permanecido estáticas num determinado território que um tanto arbitrariamente foi definido como seu, nem deixar de se ter em conta que as populações naturalmente migram. No caso de Angola, as migrações aconteceram, entre outras razões, pelo êxodo rural, pelo défice de força de trabalho em certas regiões de maior crescimento económico, pela mobilidade dos trabalhadores da função pública, e, nas últimas décadas, sobretudo devido à guerra. Esta, para além de ter provocado a deslocação de milhões de pessoas para regiões ‹‹etnicamente›› distintas, proporcionou uma enorme dispersão de soldados por quase todos os cantos do país. Naturalmente, o número de casamentos ou de relações mais ou menos duradouras entre homens e mulheres de grupos etnolinguísticos diferentes foi intenso.

Quando a guerra terminou, raro era o soldado que não tivesse constituído mais do que uma família em diferentes regiões. Por outro lado, sabe-se que a língua nacional mais falada hoje no Lubango, no Tômbwa ou no Kicolo é o umbundu, coisa que não passaria pela cabeça de Redinha, e que é quase impossível traçar linhas de separação ‹‹étnica›› em municípios como o da Cela, da Cacula ou do Negaje, por exemplo. Em tais circunstâncias, o sentimento de pertença étnica não pode ser encarado de forma linear, e deixa de fazer sentido a sua ligação com o local de nascimento.

Consideremos um homem de Cabinda, que se tenha casado em Malanje com uma senhora do Moxico (o exemplo não é fictício), ambos falantes das respectivas línguas maternas e preservando, individualmente, as tradições, usos e costumes da sua terra de origem. Qual será a pertença étnica dos seus filhos? Poderá acontecer que alguns se afirmem ‹‹Cabindas››, outros ‹‹Tchokwes›› e outros ‹‹Kimbundus malanjinos››. Ou até que não se sintam de nenhuma ‹‹etnia››. Conversando, a propósito deste artigo, com o pai, ele confessou, com certo desgosto, que nenhum dos filhos fala outra língua para além do português e do inglês, esta por terem estudado nos EUA. Onde o autor do artigo em causa – que, penso, deveria assiná-lo pois não é correcto tratar de assuntos tão sérios de forma anónima – situaria estes jovens caso fossem ministros? Nos ‹‹crioulos››? Esta alusão aos ‹‹crioulos›› suscita um outro comentário. Em Angola este termo tem servido para conotar os mestiços, principalmente em termos de cor.

O poeta Mário António utilizou há várias décadas o termo no seu livrinho ‹‹Luanda, ilha crioula››, seguramente que não era nessa perspectiva, mas sim na cultural. A consulta a qualquer dicionário de qualidade permite concluir que o termo é muito ambíguo, e, como tal, deveria ser utilizado com as devidas cautelas, para não provocar perplexidades.

Com efeito, ‹‹crioulo›› pode significar mestiço, mas também nativo, natural de, indígena, autóctone, aborígene, e até ‹‹telefone››. Assim sendo, o autor baralhou o leitor ao atribuir o atributo de crioulo a dois ministros com uma justificação que caberia para muitos outros ‹‹classificados›› como pertencendo aos Mbundu ou Ovimbundu, por exemplo. O autor não explicitou os critérios usados para a ‹‹classificação›› apresentada. Parece-me que o do local de nascimento não tem suporte científico, nem o recomenda o bom senso, dada a realidade do país.

Assim sendo, só um inquérito aos visados poderia expressar com verdade o sentimento de pertença ‹‹étnica››, e a mim não admiraria se grande parte deles tivesse dificuldade em inserir se no cardápio de grupos apresentado, pois hoje é muito comum o sentimento de que a pertença nacional se sobrepõe à etnolinguística, pelas razões assinaladas. Se é verdade que muitos angolanos continuam a se reconhecer identitariamente com o seu local de nascimento ou de pelo menos um dos seus pais ou da sua linhagem, por vezes por oportunismo político, muitos outros há também que se assumem antes de mais como angolanos.

Alguém poderá argumentar que se em vez do MPLA estivesse a UNITA no poder, a maioria dos ministros seriam possivelmente pessoas de fala umbundu. Concordo. Mas isso não retiraria pertinência à minha análise. Pelo que conheço do país, atrevo-me a afirmar que muitos dos Ovimbundu que se reclamam ‹‹etnicamente puros››, poderiam ser considerados tão ‹‹crioulos›› como os identificados, na sua perspectiva, pelo Semanário Angolense. Não sou defensor da política de quotas no poder, para mulheres, raças, etnias, embora reconheça que essa pode ser uma forma de mitigar erros históricos. Acho que, mais importante do que as quotas, são necessárias políticas públicas justas que promovam uma verdadeira igualdade de oportunidades e uma descentralização do poder a todos os níveis. Com um poder local forte, moderno e participativo, as cidadãs e os cidadãos, sem descriminações, terão as oportunidades devidas para exercerem a sua cidadania.

* Infelizmente só o encontro disponível já em segunda mão. De todas as formas, AQUI está, para que se possa ter uma ideia daquilo a que se refere F. Pacheco.

1 comentários:

Anónimo disse...

Por que nao:)