Sábado, Abril 04, 2009

Sem papas na língua

SINTO VERGONHA DE MIM

"Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte deste povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-Mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o 'eu' feliz a qualquer custo,
buscando a tal 'felicidade'
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos 'floreios' para justificar
actos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre 'contestar',
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir o meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar o meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo deste mundo!"

Cleide Canton

'De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto'.


(Rui Barbosa, in Obras Completas, v. 41, t. 3, 1914, p. 86)

5 comentários:

lau siqueira disse...

Em que livro rui Barbosapublicou este texto?

Anónimo disse...

E A POESIA..............
É COMO A MÚSICA.
SÓ QUE NÃO SE OUVE ALTO.
OUVE-SE DENTRO, CÁ DENTRO DA ALMA.
NUM GUINCHO ROUCO DE DOR.
DE VERGONHA DE SER HONESTO E TER ILUSÕES.
A ALMA CRESCE COM A IDADE.
A IDADE É TECTO DA VERDADE E SABEDORIA.
GOSTO TANTO DE TI.
MULEMBA

Anónimo disse...

A acusação é sempre um infortúnio enquanto não verificada pela prova.
(Rui Barbosa)

http://walker0709.multiply.com/journal/item/10
Mulemba

Anónimo disse...

Por favor, solicito a correção da autoria deste texto poético jamais escrito por Rui Barbosa. e sim por mim, Cleide Canton.De Rui é apenas o final maravilhoso e que inspirou meus versos. Este equívoco está trazendo um transtorno enorme.
Favor confirmar autoria na minha página:
www.paginapoeticadecleidecanton.com/sintovergonha.htm
ou no you tube,conforme correção de Rolando Boldrin no programa Sr Brasil da TV Cultura:

http://www.youtube.com/watch?v=ERTmvOll87s

Agradeço
Cleide Canton

Phwo disse...

Olá Cleide,
Correcção feita, acompanhada das minhas desculpas.
De facto, recebi o poema via e-mail e em alguns sites está com autoria de Ruy Barbosa.
(É bem certo que a informação disponível na internet pode ser falaciosa).
Obrigada por me ter alertado para o facto de, apenas o final pertencer a esse nome da literatura brasileira (daí a confusão, pois eu encontrei, até, as referências da obra em que está publicado).
Aproveito para lhe dar os parabéns pelo forte conteúdo desta sua escrita.
Um abraço