“A lagoa ─ palácio de sereia, água de meu susto contentamento. Lhe enchi mais é com minhas lágrimas. A mata ─ o irmão lembra aquela família de paus-de –acácia, os que moravam na esquerda, entrada maculussence? O pai, patriarca, canivete de Xôa não entrou, hora que ele quis sinalar o nome na casca. As filhas, siras; as das chamas vermelhas, copa ardente; a do mel de alfarroba, as flores todas de minúsculo violeta...
As buganvílias é que eram roxas descuidadas, cresciam copas e bissapas, sem escravatura.”
Luandino Vieira
De alguma maneira esse lugar deve ter sido o centro do mundo, o umbigo do universo, começo das águas, placenta do húmus da terra ou a liberdade à sombra de deus, nos seus cantos de viuvinha alegre na roda e fora dela.
Primeiro a seda do lago: cabelos de limo, águas paradas, tempos amarrados em rosa dos ventos e tempestades antes semeadas e depois colhidas em canto de pássaros. As sombras pequenas (sereias, seres, nós) rodavam lentamente sob a direcção das grandes sombras. O gigante Adamastor dormia ali enfeitiçado do fogo preso pelos artistas do leste também chamados mbangalas e outros nomes. Era como se homens, mulheres, sereias, pássaros e monstros todos se apresentassem no templo redondo, ao ar livre e céu aberto, com as suas muralhas de paus de acácia e a mafumeira em cruz ao fundo, sempre verde, sempre alerta. Altar até que não havia, mas cheiro de mar aprisionado em frasco, água benta de todos os males, os cheiros verdes da terra afinados como cantos nos dias de chuva, esses era para dar e vender.
Na idade da prata foram secando a lagoa e trabalhando a terra com água em pequenas porções para suporte do chão. A lagoa resistiu o quanto pôde fazendo nascer árvores capim e cobras no meio do cimento. Fundaram as feiras (segunda, terça, quarta, quinta, sexta e domingo). Deixaram o sábado por ser dia de reunião, funje e casamento. As lentas operações da farinha e água a ferver pediam casa e fogo, pequenas abóboras amargas e folhas frescas. Nasceram meninos para saltar valas e muros, semear gritos e pancada. O olho verde da lagoa sempre presente. A doce canção da Joana maluca, de dia e de noite, repetindo: “É aqui que as águas respiram/sopro delas/cacimbos da gente...
Taparam quase tudo, a feira ficou mercado, um mercado feito templo com serenas colunas abertas para o sol. O infinito podia jogar às escondidas em todo o sítio. Porque nada era a porta aberta para o silêncio.
Uma mulher do norte chegou ali. Vinha fazer uma guerra de armas de repetição e carros de bois. Chamava-se Maria da Fonte (uma das sete, dizia-se) e montou ali o seu Kilombo. Kinaxixi meu amor falou, Kinaxixi Kiami aprendeu.
Um dia olhou para trás e virou estátua, não de sal como a mulher da outra história (de amor, salvação, caminho de luz, fogo e cadela Minerva a que morreu de seus próprios partos), mas estátua de mármore, mulher e todos membros do Kilombo mais as armas e peças de artilharia, tornados pedras no meio do Kinaxixi, que é como quem diz no meio dos nossos corações e da cidade. Alguns anos mais tarde trezentas cargas de nitroglicerina transformaram o Kilombo em pedaços de pedra muito pequeninos. No chão nasceu erva de arranca pedras e chá, outras histórias para contar.
No mesmo sítio nasceu a “economia informal” (as formas apareceriam mais tarde de camião, a petróleo, audis e muitas armas): uma mulher sózinha com as unhas dos pés pintadas de vermelho e um cabelo armado em rosa dos ventos vendia, com gestos lentos, um copo de Sbell (bebida, de fabrico local e curta duração), uma bolacha de água e sal e alguns “francesinhos”. O tempo das kinguilas, com a sua bolsa de valores montada na rua, vinha longe...
Novos ventos se amarram de novo, hoje, no Kinaxixi. Rios de cimento e lava jorram pelo chão. Que o olho verde da lagoa continue vivo.
Lisboa, Outubro, 2002
Ana Paula Tavares
3 comentários:
Não sendo linguista nem filólogo, interrogo-me com alguma estupefacção acerca da súbita proliferação do k, em certa escrita em Angola, com valor fonético 'k' e substituindo a habitual grafia em 'qu', sabendo que se trata de escrita da língua que os portugueses aí introduziram, em épocas remotas de que já ninguem se lembra.
Será uma manifestação de angolanidade e independentice pela diferença, análoga a tantas outras peculariedades 'anti-coloniais', umavez que não se vislumnbra grande avanço nas 'humanidades', em Angola?
NUNCA EXISTIU QUINAXIXE, NEM LUANDINO VIEIRA EM LUANDA, NEM ELEFANTES ANGOLANOS NA QUIÇAMA, NEM PALANCA NEGRA NA SUA RESERVA EM MALANGE, NEM PAZ NO MUCEQUE: Foi tudo um sonho que desapareceu com o pesadelo petrolífico.
Bom proveito.
Belíssimo o texto da Paula.
...e tinha caricocos, bancas de legumes, damas e damos, compras e vendas e depois lataria, lixo e catinga e gente e vida a crédito, a prazo e ogros (vejam lá...) nas estórias que se ouviam, ouviam porque haviam vozes.
Quando vieram os tapumes, azuis, prenúncio de outros ruídos metálicos, das "dozers", vieram também os cartazes, eufóricos com a trade mark da empresa contratada para levantar o pó a que foi reduzido.
Passei por lá, espreitei. Só vi, por mero acaso no chão uma camisa...de vénus.
K ganda foda!
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