
Dona, fáxavor!... Ó Dona!
(... um telemóvel estafa, ainda mais, a já gasta "Marcha Turca)
Alô? Si, esstou aqui no ministérrrio. Ainda não... Grrraças à Deus!...
- O senhor da embaixada do Egipto, por favor!
(... de novo Mozart telemovelfónico). O homem procura a fonte musical dentro de um saco plástico de supermercado. Não consegue chegar ao balcão. Perde a vez.
Do outro lado: Ó Dona! Dê-me só os meus documentos que levou pra dentro! Donaaaa! Não está m'ouvir? Possa!!!!
Com'é? Um gajo acorda cedo, vem práqui e todos passam-lhe à frente?? Ó Dona!
Doutor Ling?Lá corre, pela quarta vez, o chinês ansioso até ao
guichet, seguido da sua mulher (que só chega ao balcão graças às sandálias se salto altíssimo). E diz ela desolada: Um mômentu, êspêlare. O marido acena negativamente com a cabeça, os olhos em bico com um sorriso (?) nos lábios. Engraçada forma de mostrar desagrado, penso eu.
Minha senhora. Sim? (respondo olhando para trás). Vem levantar documentos? Sim, venho. Tem que dar o nome para porem numa lista, para saberem que já chegou e chamarem-na para a entrega dos documentos. Obrigada, vou fazer isso, respondo; Mas... como é que o senhor sabe? Não está nada aqui escrito!... Ainda bem que me disse senão ficava aqui toda a manhã. É assim (explica-me), nós os angolanos aprendemos de tanto ter de vir a estes lugares, responde-me ele correctíssimo com um sorriso. Obrigada, bisei o agradecimento com sorriso junto.
Bom dia Dona Antóniaaaa!!!!! Olho para trás. Um homem magro cumprimentou em altos berros alguém que estava do outro lado do vidro do
guichet.
Obrigada a quem quer que seja!!! A resposta passou através da abertura no vidro que, de tão baixa, obriga a pessoa a "partir os ossos das costas" para ver a cara de quem atende.
Sou eu, o Jó!!! O homem de pé, com "cara tipo nada", mãos nos bolsos, na dele. Todos olharam.
Toque: a "Quadragésima"... Um concerto de Mozart, ou quê? Agora o telemóvel enviava uma conversa sobre um esquema de compras e vendas. Depois logo falamos, agora não dá!
Um "muito obrigadinho" (faltava o "sou eu") põe na montra a nacionalidade de um
kota com ar de transpirado, mesmo no cacimbo.
Um militar de bissapas vermelhas entrou na sala e olhou em redor. Pegou no telemóvel. Saiu para entrar logo; directamente pela porta de serviço. Saiu com papéis. Todos olharam.
Deixei de ouvir e de tentar adivinhar as músicas de mais ou menos qualidade fanhosa.
Lá dentro, o som da televisão (sintonizada no canal 1 da TPA) estava agora mais alto. Funcionários e público aumentaram o volume da voz.
Olhei para o relógio. Estava ali há uma hora. Não me chamavam. Fiquei à espera até ser atendida.
Agradeci e bazei.
Sim, senhor!... Uma manhã bem estragada, pensei.
Nota: Os nomes são fictícios.