É fácil, nos dias que correm, falar-se em Angola, em dança contemporânea e em profissionais de dança. Se, por um lado, podemos interpretar este dado pela positiva – “fala-se sobre, porque já se teve contacto com” – por outro, é infelizmente a evidência da falta de uma consciência e de um conhecimento profundo do que significa e quais são os fundamentos destes elementos que integram a chamada dança teatral.
A comprová-lo está a contaminação do já debilitado panorama da dança cénica em Angola, por uma sem número de manifestações e atitudes que, apesar de se insinuarem como tal - na tentativa de convencerem um público menos conhecedor desta nova corrente -, não possuem as características que lhes permitam integrar-se técnica, metodológica e esteticamente nas categorias em questão.
Falar da história da dança contemporânea obriga um recuo aos anos 70, ao coreógrafo americano Merce Cunningham e mesmo às manifestações performativas surgidas em meados do século XX.
Em África é incontornável o nome da franco-senegalesa Germaine Acogny, a primeira coreógrafa africana a defender uma formação em dança e a propôr que a dança africana ultrapassasse os moldes do tradicional para, em paralelo, acompanhar as correntes universais. Numa iniciativa conjunta com o coreógrafo belga Maurice Béjart, e sob os auspícios de Léopold Senghor, é criada em Dakar (1977) a “Moudra Afrique”, talvez a primeira escola de dança moderna no continente (exceptua-se a África do Sul e Angola) a qual, apesar da sua curta duração, alertou para a importância de uma abertura no plano da dança em África.
Mas o que é a dança contemporânea, afinal?
CDC Angola. Fotografia sobre tela pintada. Rui Tavares.Vivemos num tempo em que a articulação da tradição (que não é uma exclusividade africana) com a actualidade é possível, em que as fronteiras territoriais e as linguagens se interceptam, em que a circulação e a comunicação acontecem a velocidades alucinantes.
De forma muito abreviada, podemos dizer que a dança contemporânea é uma corrente cujas origens se situam na segunda metade do séc. XX, e que parte das transformações formais e teóricas do Pós-Modernismo norte-americano e das inovações da chamada Nova Dança Europeia. Distanciando-se das gerações e dos géneros anteriores – clássico e moderno – , esta forma de dança não se encerra em métodos cristalizados ou técnicas sistematizadas e constitui uma forma mais abrangente e ecléctica, revelando-se mais permissiva e aberta ao diálogo.
Mais atenta à improvisação e à informalidade, esta corrente procura processos de construção distintos dos habituais. Temáticas ligadas às vivências, posturas e visões pessoais do coreógrafo e dos bailarinos, são normalmente preferidas nos processos de criação liderados pelo questionamento e pela experimentação. Outros elementos de confluência são a diversidade técnica e a interdisciplinaridade.
Ref.as: G-Marques, A.C. & Tavares, R. (2003). A Companhia de Dança Contemporânea de Angola. Lisboa: Mukixe.