Hoje entrei pelo mesmo portão, subi outras escadas (porque agora cobertas por um piso de borracha às bolinhas). Entrei pela mesma porta pesada de vidro que estava entreaberta.
Detesto fraquezas e sentimentalismos, mas... aquele ainda era o meu liceu. Os jardins interiores arranjados e, pelo menos no andar de baixo, não havia papéis no chão.
Entrei na última porta à direita - na parte de baixo do anfiteatro. Os integrantes dos grupos de teatro de Luanda esperavam já sentados nas cadeiras, agora almofadadas. Cortinas azuis cobriam as paredes, por onde espreitavam aparelhos de ar condicionado.
Foi o dia de abertura do Forum Provincial de Teatro, organizado pelo colectivo teatral Horizonte Nzinga Mbandi.
Falei de dança, de teatro, das relações históricas e afinidades entre as duas modalidades. Os "alunos" escutaram atentamente e fizeram perguntas. Bwe. Discutimos sobre artes, comportamentos, métodos, inquietações e estímulos a partir das nossas realidades. Trocámos experiências. Interessados em saber mais, ficaram com a promessa de que voltaria, mas para aulas práticas, a minha preferência no ensino.

Saí para o corredor para "curtir" o liceu.
Não consegui, pois até à porta fui conversando com eles sobre contemporâneo, estilos híbridos, modelos abertos, pesquisa de movimento e atitudes. O tempo não tinha chegado para falar sobre tudo.
Lembrei-me de, quando aluna, via a minha mãe e algumas outras professoras rodeadas de alunas até à sala de professores.
Desci a escadaria, atravessei o pátio de entrada, transpus o portão, sempre acompanhada por um gentil jovem integrante do grupo anfitrião.
Afastei-me olhando com pena de não ter subido atá ao último andar, de não ter ido à cerca, no quintal, de não ter entrado no ginásio. Não consegui ficar a sós com o liceu. Mas gostei da sensação de lá ter estado como "professora".
:-)
16 comentários:
Olá Ana!
Senti um arrepio de grande contentamento, sobretudo na beleza como descreves neste teu texto o «ir à escola» de uma forma ímpar, o de lá ter estado conjuntamente para Aprender, e agora, o de «ir...» mas na singularidade do que é ENSINAR com prazer e por quem sabe como agir feita dessa interioridade do que se sente e se cultiva pelo silêncio, a valorizares o que é aprendizagem do singular para um colectivo e não a de um colectivo sem singular(es).
Um beijinho e bom trabalho
Eh, Clara!
Grande conto, o do Liceu.
Que bonito...
e você também.
(grande mulher!)
Já passei por isso.
Apenas para te dizer que não são fraquezas.
curtir o que o nosso passado tem de bom, é óptimo.
BJS
Henrique
Caros amigos: Obrigada pelos comentários. Foi, de facto, um conjunto de sensações absolutamente indescritíveis.
Fraquejei, reconheço. Mas foi gratificante. Tenho que lá voltar para "conversar" com aquele espaço e mostrar-lhe que ele não pode ser mais forte do que eu.
:-)
Beijinhos.
Não vais conseguir.
Ele é mesmo mais forte que tu.
E...ainda bem.
Raízes são isso mesmo.
BJS.
Henrique
Estive a ler-te atentamente e, de repente, vejo-me a entrar passados 40 anos a porta enorme do meu colégio.
Um dia destes conto... lá.
Beijinhos com saudades
Bela PWO
Tenho andado a vaguear nos tempos do esquecimento e a tentar meter o comboio nos carris da vontade. Mas estou aqui sempre porque gosto do que leio (às vezes...). Gostava de te ter como professora, acredita, no teu liceu ou na minha escola.
Um beijo
Fraquejou!!?
Não vejo em quê. P'lo contrário...
"...de dança, de teatro, das relações históricas e afinidades entre as duas modalidades."
Não podia ter vindo mais a propósito então, a minha sugestão de que viesse (adivinho que não pode) ver os Pilobolus!
Gavião: Que te disse? Ehehhee. Olha que sou forte que nem um rochedo!
(Tou a brincar... Às vezes até é bom ser-se vencido por aquilo que nos marca, como é o caso)
Bjs.
Paula: Tens mesmo de publicar. E colocar fotos, também. Daquelas "antigas".
Beijos bwe.
Fifer: Saudades!... Por onde andas?
Agora: eu professora e tu aluno???
Esquece lá isso.
;-)
Beijinhos
Pirata: Pois adivinhou bem... :-(
Aqui estamos a anos luz do que se faz no resto do mundo (nas artes). Nem sabemos o que se faz em Moçambique (que está à frente de Angola bwe de milhas, no que respeita à arte contemporânea), aqui tão "irmão", ou nos demais países do nosso continente, onde a dança contemporânea, por exemplo, conhece já passos firmes, ainda que tímidos. Enfim... Não fossem a internet e os colegas "de fora", seria o deserto sem oásis.
Vá ao espectáculo e venha contar-me como foi! Eu... fui espreitar o site deles e gostei do que li (e vi).
Bjs.
Entretanto
1 divirta-se com isto
http://www.kewego.com.pt/video/iLyROoaft9y-.html
2 espreit'aqui
http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=80950279
e
3 sorria
http://vids.myspace.com/index.cfm?fuseaction=vids.showvids&friendID=80950279
(Há trinta anos que não os vejo e nunca os esqueci!)
NOTÁVEL é o facto de que nunca deixam de dançar, no meio de toda aquela 'coreografada' que decerto já vislumbrou. E cantam, e exclamam, e batem palmas e c'os pés no chão... e tudo!
E não deixam nem por um momento de dançar - nunca caiem na mera ginástica mais ou menos acrobática ou mais ou menos ritmada.
Olá Pwho,
Embora não tenha conhecido esse teu Liceu tenho seguido as tuas narrações com grande interesse porque, para além de ter sido o liceu que a mãe dos meus filhos frequentou, vejo-me ao te ler, no meu próprio liceu, o antigo Alexandrino da Cunha em Gabela. Consegues transportar-me e isso é maravilhoso!
Hugs!
Olá Mazungue: Bom ver-te aqui, no "meu liceu". Um beijinho.
Olá, menina linda!
E olá toda a outra gente, também linda.
Pois esse é também, ainda e sempre, o meu Liceu.
E qundo o "vejo" penso sp "tenho que voltar". Já sonhei com ele, muitas vezes.
Fraquejaste? Que bom é esse fraquejar, minha querida!
Concordo com Gavião..."raízes são isso mesmo". E como é bom sentir essa sensação. Como eu quero conversar com tudo, perder-me nessa fraqueza, que me dá uma invencibilidade sem tamanho...
Não tenho escrito nada, mas vou passeando, devagrinho, por vários espaços, e vou estando, sempre, de um modo ou de outro, convosco.
Obrigada pelas recordações.
xi coração a vós.
gabi
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