Sexta-feira, Junho 15, 2007

Tem piada, tem!

Pois, que engraçado...

Dizia-me alguém (com ar de espanto) que está para perceber que tipo de pessoa sou eu. Ya... Há gente para quem só é fixe quem diz bem de Angola; quem diz mal, é "reaças". E mais: como pode uma pessoa como ela (eu) que nunca deixou a terra e que se entregou até ao quase vazio, falar assim?

É... acontece (aos melhores e aos piores).

Gostaria de perguntar como se sentiriam os fazedores de power points com "belas" vistas aéreas da Luanda actual, se conseguissem fazer um zoom e ver o que se vê quando se está em terra firme, com os pés na lama, a tropeçar nos montes de lixo em plena cidade; a ouvir a voz do povo. E como se sentiriam se tivessem sido traídos nos seus valores e convicções mais profundos.

Bem gostaria de medir o optimismo de alguns, depois de passarem uma manhã num hospital do estado, numa repartição pública ou se tivessem de beber água inquinada e pagar o equivalente a 100 usd correspondentes a uma conta de uma electricidade que só aparece de vez em quando.

Deixem-me oferecer-vos um dos dez (contei-os) montes de lixo pelos quais passo diariamente às 7.45 da manhã, só ao descer a Avenida (?) da Clínica do Prenda, em plena cidade de Luanda. Hoje não havia nem meninos a brincar, nem mendigos a comer neste monte. Mas podem sempre clicar na foto para identificarem os "desperdícios".


Gostaram? Pareceu-me um presente "very typical"...

Confesso que me dá até um certo gozo ouvir o discurso quer daqueles que, refastelados na Europa ou na América (States!) dizem mal de Angola, apenas porque "desconseguiram de aguentar a dipanda", quer dos outros que agitam bandeiras a favor do povo, enquanto usufruem de todas as benesses a que têm direito em países que, apesar da intolerância, os emigrantes de luxo preferem ao seu país natal. Vocês "deram-me graça", como se diz por cá.

E é isto mesmo, só vendo (e vivendo, já agora) o dia a dia é que se tem a percepção do "lixo" em que nos movemos, apesar dos esforços de todos - numa coragem infinita - para fingir acreditar que ainda há pior.

Para quem continua interessado em saber como me defino: apenas posso dizer que não me interessam os rótulos quaisquer que eles sejam. Tampouco estou filiada em rebanhos de ovelhinhas sejam eles religiosos, políticos ou sociais.

Mantenho-me na minha (yo!), não sou a cabra cega (vá lá!...) e não dispendo energias a irritar ninguém, só porque é inimigo do meu país. Estou do lado da justiça. Mas daquela teórica, ou seja, impraticável. Infelizmente.

14 comentários:

Cangonja disse...

Querida Phwo
Guerreira, que bom seres como és!
Beijo

-pirata-vermelho- disse...

Proclamo a minha solidariedade que de pouco (lhe) serve.
É a maneira de me sentir menos frustrado por, vestindo a sua pele, não saber, nesse caso, que saída encontraria.

Um grande abraço, Phwo! Nem que fosse só pela coragem e lata de viver nessa terra que fixou tod'a gente que a conhece(u).

Anónimo disse...

Pois é, Phwo. Até eu me senti mal com o teu texto. Não estou refastelado, mas não vivo mal na Europa onde tento sempre defender a Angola onde nasci e que os meus pais deixaram em 75.
Mas tu com este texto, encheste-me de vergonha. Serei mais cuidadoso daqui para a frente.
O nosso (permite-me que o chame assim) país não é o paraíso que muitas vezes inventamos. Tens razão. São milhões de pessoas a viver mal e umas poucas a viver bem.
Outras há que se distraem com o clima e a indiscutível beleza natural. Mas um país é muito mais que isso.
O meu respeito.
João Macedo Fernandes.

Phwo disse...

Cangonja: Sinto-me com a "missão" de contrariar e de perturbar (já sabes como sou). Assim, pelo menos, mantenho-me fiel àquilo por que sempre lutei: liberdade (de facto) e justiça.

Pirata: Obrigada pela solidariedade, mas para quem optou por ficar, o que conta mesmo são as mangas arregaçadas contra os poderes prepotentes do dinheiro e da ignorância.
Talvez não haja mesmo saída. Por enquanto. Mas o "pão que o diabo amassou" ainda há-de ser mendigado por quem o inventou e engolido com a ajuda de um petróleo ecologicamente fora de moda.

João Macedo: Pois... se há coisas que me enervam é ouvir quem não sabe o que se passa, papaguear maravilhas sem escutar as verdadeiras vozes de Angola.
Também me enjoam algumas teorias de desterrados actualizados via net e media.
Há alegrias, porque há a noção de que agitar demasiado é tempo perdido e saúde em perigo. Mas há muita tristeza no orgulho ferido pela resignação.
Obrigada pela sua visita.

Denudado disse...

Phwo, não renegues nunca os teus valores e os teus ideais de justiça, por muito traídos que eles sejam. São eles que te permitem manter acima do lixo moral.

Phwo disse...

Denudado: Obrigada, meu amigo. Não te preocupes. Sei bem quem sou e o que defendo. É engraçado... sabias que eu não tenho quaisquer problemas de identidade? Assumo-me como um "hibrido" e, nesse aspecto, sou feliz. E é isso que me ajuda a manter de cabeça erguida.

gaviao disse...

Sei de que lado da barricada estás.
Aliás, não é preciso grande inteligencia para chegar a essa conclusão.
Discordo por vezes da violência que empregas, sem cuidar de que há outras pessoas do mesmo lado, vivendo noutros locais.
E, ser feliz aí ou em qualquer outro lugar, não é crime!
Crime é ignorar o que se passa aí, ou no Sudão ou...
Um abraço
GED

mazomenozMazungue disse...

Phwo,
Pois li e reli e hei-de ler outra vez certamente. Nada tenho a comentar ou a acrescentar pois não estou nos teus mocassins. Mas declaro uma vez mais o que tu bem sabes, o meu respeito por ti e pela honestidade dos teus comentários.

Continuarei a ler..

Phwo disse...

Gavião: Não existe violência maior do que percebermos a nossa impotência para mudar a situação.
É tão terrível que chegamos a culpabilizar-nos por sermos felizes. É o desencanto a que tenho direito.
Estou quase certa de que, se passasses pelo mesmo que eu, irias sentir a mesma revolta e irias falar assim, até para que não se deixe ignorar o que está mal.
Quanto à forma como me expresso... é o meu jeito quando estou nos limites e quando visto a sinceridade que merece quem me lê.
"A diplomacia fica para os encantadores de serpentes", foi a resposta que dei à pessoa que fez a observação que me levou a escrever este post e que também me disse que eu tinha de ser mais... diplomática. Saiu de minha casa com um sorriso nos lábios tipo: 'não vale a pena', enquanto abanava a cabeça.
De Luanda, o local onde vivo tudo o que acontece, um beijinho para ti.

Meu querido Maizoumenos: Obrigada por seres sensível, mesmo a uma tão grande distância.

Anónimo disse...

Phwo, tu és mesmo horrível. Eheh. Escusavas de me vir entregar aqui em frente a todos. ;-)
Mas pelos vistos não sou o único.
De todas as formas quero dizer-te que consegues ser brilhante. Este último post sobre os edifícios então.... não há nada para desculpar.
Beijo
C. Jorge (Cajó)

Phwo disse...

Cajó, lolll.
Ninguém te mandou "ralhar" comigo. E em minha casa!
;-)
Bjs.

Anónimo disse...

Ainda ontem ouvia Agualusa a referir-se aos problemas de Angola comentando, que, era das capitais mais antigas de Africa. Referiu-se a alguém que um dia comentou
" Deus fez Angola e o Diabo fez Luanda". Aqui discordo totalmente como se os problemas de Angola fosse Luanda e ... porque o Diabo passou depois!
É sem dúvida "very typical" e há pior, noutros países africanos e até extremo oriente poderá juntar e imaginar o saneamento a ceu aberto a correr ao lado do lixo. Só a ignorância poderá falar mal de Angola, porque mesmo nos piores momentos, nos anos de guerra, na fome, no desconsolo, Angola não quer saber quem és! tem um sorriso para quem chega.

Phwo disse...

Embora não me agrade muito responder àqueles que anonimatam zangadinhos sem assumir o que escrevem, hoje estou (outra vez) bem disposta!
Quanto aos esgotos, só precisa de imaginar que não vive cá, pois em Luanda, na Praia do Bispo (e não só!), também os temos a céu aberto a (es)correr, não ao lado do lixo, mas no meio do passeio separador de faixas de rodagem, ou seja, tudo "bonitinho" (?), construído propositadamente para o efeito em betão, para conter e dirigir para o mar o "viscoso conteúdo" . Às vezes cai alguém lá dentro, mas isso agora não interessa nada.
Criticar o que é verdade e obsceno de tão mau não é "falar mal" (que expressão vaga é esta?). É proporcionar o equilíbrio com outros argumentos mais fáceis e românticos (como aquele que para aqui trás)que nem sequer invalidam ou se opõem ao que aqui exponho. Digamos que são duas faces da mesma moeda. É verdade o que diz, mas é evidente que isso não serve de razão para desculpar tudo o que se faz justamente a esses mesmos que têm sempre um sorriso para acolher seja quem for. E esse é o problema. As pessoas são boas e por isso toleram, e por isso "lhes abusam". Demasiado. Haverá outra saída?
Eu não gosto de ver e tenho o direito a partilhá-lo.
Obrigada pela visita.
Há já algum tempo vi um filme interessante: "De olhos bem fechados"...

Anónimo disse...

Acolho a sua boa disposição embora lhe esteja a estalar o verniz.
Partilho as suas indignações mas decerto não vemos os mesmos filmes!