Sábado, Junho 23, 2007

A casa


Foto: Phwo

Em frente à baía de Luanda, neste edifício, colado ao prédio do "Baleizão", nasceu o meu pai. Neste mesmo local funcionava a Escola do Grémio Africano, onde a minha avó paterna foi a primeira professora e directora. Uma fera, mas boa mestra, diz-se ainda hoje! Pelo sim, pelo não, ainda bem que não fui aluna dela. Conta-se na família que o meu tio mais velho, seu aluno, todos os dias apanhava uma sova sem que para tal houvesse necessariamente um motivo. Interrogada sobre o porquê daquela atitude, ela respondia que tinha que dar o exemplo. Métodos...

Mas, como tantos outros edifícios antigos da baixa luandense, este está certamente à espera de ser abatido.
(Até porque não ficaría nada bem ao lado do oceanário, do museu da ciência e tecnologia e do centro comercial que vão ser construídos no sopé da fortaleza de S. Miguel)

Mais do que irritada, hoje estou triste.

Será que isso de "nervos de aço" existe?

12 comentários:

Anónimo disse...

Ola Muana pwo
Sou kaluanda de coraçao e de ter nascido e vivido até aos 90 e moro em França por obrigaçao mas sempre com meu pais no coraçao.Descobri teu blog (que adoro e me ajuda a matar a saudade da terra)por acaso, a poucos meses, nas minhas pesquisas e na vontade sempre no meu peito de estar perto de angola...e de vez em quando ca venho.Hoje fiquei triste tambem ao ler que a zona do baleizao vai desaparecer...para construirem um oceanario e centro comercial?Luxo na miseria!!!Que pena!Ate a proxima!Mara

Phwo disse...

Mara,
Obrigada pela tua visita. Infelizmente, neste momento, não te posso mostrar nada de bom... Mas é assim o ritmo das coisas, umas para melhor e outras para pior. Paragens no tempo... não há.
Um abraço e volta sempre que quiseres.

daniel sant'iago disse...

Parece que sim... pela (tua) amostra junta!
Beijo.

JotaCê Carranca disse...

... e a vida continua numa mudança que não somos capazes de acompanhar.
Tal como tu, fico triste quando sei que algo que tem recordações e memórias vai desaparecer. Mas aquilo que chamam de modernidade e outras tretas não se compadece com as minhas lágrimas não choradas porque contidas.
Bem, depois a gente até é capaz de gostar mas fica sempre aquele luto.

beijos

-pirata-vermelho- disse...

Hoje constatei uma coisa, Phwo - não me lembro de encontrar gente de Angola que saiu de Angola com o sentimento que tem esta gente que fala d'Angola.
O mesmo se passa com gente que não nasceu lá mas que por lá passou; e raramente encontro esse sentimento indefinido mas que tem qualquer coisa de nostalgia-desgraça em gente de outras paragens, em condições idênticas.
Que 'Marca d'Angola' é esta?
A brincar, uma angolana, aí em Luanda, quando lhe punha questões destas respondia que se tratava do 'feitiço africano'... pareceu-me sempre uma semi-brincadeira. A verdade é que nunca vi este feitiço em outras Áfricas que também conheço.

Um abraço
que em si materializo, também, a metade da alma que aí deixei.

Phwo disse...

Daniel: Infelizmente (parece)
Um beijo.

Carranca: Tens razão. Fica sempre aquele luto. No entanto,o problema é, em alguns casos, bastante mais grave. Não se trata de uma simples mudança. Trata-se de abate; crime. A verdade é que nem o património classificado é poupado a esta violência. E quando assim é, nada que coloquem em seu lugar é passível de ser adoptado,pois paira sempre uma lembrança de morte. (Para quem tem sensibilidade e respeito por estas questões, claro). Beijo para ti.

Pirata: Não sei o que é, pois nunca estive afastada o tempo suficiente para sentir essa nostalgia.
Aqui costuma-se dizer que as pessoas ficam assim porque "beberam água do Bengo" (ou outro rio), mas nunca dediquei muito tempo a pensar sobre isso. São as pessoas e as suas recordações boas. Ainda bem.
(O que eu não sei é se agora pensariam da mesma forma, mas isso é outra conversa).
Um abraço para si.

Corsario disse...

Fui educado nesses métodos e com modos que me permitem hoje uma atitude mais positiva.
Esse edifício tem de certeza uma estrutura que hoje já não se edifica. Em vez de deitar abaixo deveria ser mantida a estrura base do prédio, renovando a fachada remodelando o interior enquadrado na paisagem urbana em que se insere.

Corsario disse...

Espero que, com o dia passar esteja menos triste.
Os nervos de aço é uma expressão tensa, prefiro sempre ver o lado positivo e há muito que aprendi; Todos os dias são belos o que é preciso é, podermos apreciá-los.
Tenho o sol no horizonte, o mar está espelho, vou para o mar, a nortada amainou, as gaivotas voltam para terra, dizem-me adeus, os golfinhos juntam-se ao barco para me desejar Boa Viagem, o Meyers ( Rum, é claro) balança no copo e enche-me a cabeça clareando-me as ideias dentro de uma hora medirei as estrelas; que vos posso dizer: Expludo de alegria e felicidade. Vivo entre o sol e o mar. Sou egoista, deixo-vos com essas imagens. Pode-me dar boas novas de Angola!

-pirata-vermelho- disse...

Creio que não, não pensariam 'da mesma forma' mas isso é outra conversa, de facto; dramática!


(Pra si também)

Helder de Sousa disse...

Esse edifício morei lá, teria eu meus cinco anos de idade, depois de meu pai ter sido transferido de Malange para Luanda, no final da II Grande Guerra. Tinha um grande e escuro corredor que dividia quartos e salas e terminava num imenso terraço nas traseiras, encostado ao morro da fortaleza.

inominável disse...

nervos de aço existem... mas não são para quem tem caules de rosa...

Anónimo disse...

Entre piratas, corsários, uma gentil senhora de 90 anos, e um tal Helder, que até morou nessa casa. que poderei dizer ?---------
Pobre Luanda, pobre Angola. Governada por vsmpiros.
Franco atirador