É bem verdade que gosto de descrever situações que, por motivos diversos, me tocam.Há tempos, num blog que faz parte da minha ronda obrigatória, A Matéria do Tempo, vi um post particularmente interessante pelo seu grau de emotividade e sinceridade.
Nele, o "Denudado" contava da sua entrega a uma prática que, não sendo do seu quotidiano, de repente se tornou tão sua, se tornou elemento de consciencialização de que a humanidade é só uma.
É o que sinto quando danço; é o que sinto quando estou ali a tocar com as meninas sob o "comando" do Maradona. São momentos de entrega e de fruição únicos.
Hoje, com a sua permissão recupero o seu texto para aqui.
... Lembrei-me, porque também fala de batuque, apesar de no contexto dele, o "batuque" não ser um instrumento musical, mas sim uma performance de canto e dança.
(Fiquei contente por, finalmente, ter um pretexto para resgatar um relato de que gostei muito.)
LER AQUI.
4 comentários:
na altura tb gostei muito deste post do denudado... achei que se comparava a muitas situaçoes de estranhamento que por vezes tb vivo... um estranhamento em que nos vamos entranhando, afinal...
Querida amiga Phwo, muito obrigado por mais esta referência ao meu blog. Este teu blog também faz parte da minha ronda obrigatória, podes ter a certeza.
É verdade que a palavra "batuque" pode ter mais do que um significado. Este foi um pormenor que involuntariamente omiti no meu post. A palavra "batuque" tanto pode servir de tradução da palavra ngoma, como pode designar uma manifestação cultural colectiva de canto e dança, em que o ritmo marcado por tambores desempenha um papel de primordial importância. Neste video, por exemplo, pode observar-se um tipo de batuque muito especial, que faz parte da tradição popular da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e cujas raízes mergulham bem fundo no solo do continente africano.
Também me esqueci de referir no meu artigo que o batuque em que participei ocorreu na província do Uíje, embora as imagens que acompanham o texto se refiram ao sul de Angola. Embora tenha procurado na Internet, não encontrei imagens sobre batuques do norte angolano; só encontrei do sul. Como não descobri nenhuma diferença fundamental entre o que se passou no "meu" batuque e o que se vê naquelas imagens, resolvi publicá-las, para dar uma ideia de como é que foi.
O batuque em que tomei parte tinha por finalidade marcar o fim do período de luto pelo falecimento de uma mulher. Por estranho que possa parecer a um europeu, a alegria e o entusiasmo com que as pessoas participam neste tipo de batuques é muito importante para a alma da pessoa falecida.
Segundo a crença popular, quando uma pessoa morre, o seu espírito não vai logo para o reino dos mortos, antes fica a vaguear pelo mundo dos vivos. É só quando o batuque se realiza, no fim do período de luto, que o espírito do morto parte para o Além, onde ficará tanto mais em paz e de bem com os vivos, quanto mais entusiasmo estes últimos puserem no batuque realizado em sua honra. Se não se fizer batuque nenhum ou se este for demasiado chocho, acredita o povo que o espírito não partirá para o Outro Mundo, antes ficará a vaguear para sempre neste, interferindo na vida das pessoas e espalhando o mal em sinal de vingança.
Esta é a crença popular, pelo menos na província do Uíje. Mas há uma razão que está implícita nela, que tem a ver com a vida da própria comunidade. A pessoa que morreu tinha as suas relações familiares, de amizade, de vizinhança, etc. Com a sua morte, os laços que a uniam aos outros romperam-se, isto é, o tecido social ficou danificado.
Quando morre alguém que nos é querido, choramos a sua morte, evidentemente. Mas numa sociedade do mato africano, em que a vida já é de si difícil (muito mais para as mulheres do que para os homens, diga-se de passagem), não é possível ficar a chorar a morte de alguém durante muito tempo, sob o risco de pôr em causa, em última análise, a própria sobrevivência da comunidade. É preciso restaurar o equilíbrio social e emocional, reparando o tecido das relações humanas, para que a comunidade fique apta para enfrentar outra vez os desafios que lhe aparecerem. Há um tempo para chorar os mortos e há um tempo para cuidar dos vivos. Uma vez chorado um morto, os vivos têm de refazer a sua vida.
É aqui que entra o batuque de fim de óbito. Os vivos, através de uma grande festa, tratam de reforçar os laços de solidariedade que os unem uns aos outros e tratam de estabelecer novos laços, que não entrem já em linha de conta com a pessoa falecida. Assim, quanto mais intensamente vivida for a festa, mais fortes serão esses laços, antigos e novos. Acabada a festa, a comunidade saiu renovada e reforçada e então, sim, o morto poderá repousar em paz na memória daqueles que lhe quiseram bem.
Recordações de ser em Cabo Verde...
...continuo, sempre, com saudades de África!!
Visito este "meu" pedacinho de memória, sempre com saudade!
Muitíssimo interessante esta filosofia de vida, em que os mortos continuam, ainda que sob uma forma imaterial, presentes. Este pode ser, em minha opinião, um dos mais importantes factores de preservação de uma identidade histórica e cultural dos diversos povos da Áfricaasul do Sahara. A perda das referências é, sem dúvida, mais lenta do que no Ocidente, por exemplo.
Sei que as máscaras, e a Phwo sabe disto melhor que eu, são, justamente, uma forma de equilibrar a sociedade, reavivando a memória de antepassados que regressam para relembrar valores ancestrais, morais, sociais, de conduta, etc.
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