Terça-feira, Abril 17, 2007

Abaixo o progresso com (telhas de) vidro!


Foto de telemóvel com o qual tentei apanhar um urinol público (letras a branco na parede verde) onde flutuava, entre outras duas, a bandeira nacional de Angola. O placard é uma publicidade a cigarros (!!!); Malrboro.

Luanda, hoje (2007).

Podia ser uma ficção, mas infelizmente não o é.
Saio à rua. À porta de minha casa, um mercado de fruta e peixe; junto ao muro lateral, uma oficina de motorizadas improvisada diariamente e escondida por um camião, há que tempos, moribundo. A polícia não liga. É normal…

Decido, enquanto parada no trânsito infernal, reparar na apressada (e desenfreada) construção civil. Prédios e mais prédios, enormes, nascem como cogumelos (desculpem o lugar-comum) por toda a parte, desrespeitando quer as normas obrigatórias de segurança, quer a traça e o conjunto arquitectónico dos bairros onde são edificados.
Chego ao local do primeiro grande crime: a Mutamba. O belo edifício da Fazenda é agora um micro-ondas gigante, com as amplas varandas fechadas por enormes paredes de vidro fumado, num desrespeito total à autoria do arquitecto Vieira da Costa (alteração da forma).
Depois... a baixa; a velha baixa luandense onde o atentado contra o património físico (classificado e protegido pela lei) foi, pomposamente, inaugurado pelo derrube da farmácia D'Antas Valladas (onde se ergue, arrogante, a nova sede da Sonangol, com dezenas de andares). São já mais de cinco as torres com vidros que tanto orgulham os defensores do progresso e da modernização do país. [A que preço? (Gargalhada!)]

Enquanto se fortalece o discurso cultural sobre a autenticidade e a tradição, com o qual se entretêm jornalistas, políticos e cidadãos comuns, dá-se (entre outras práticas importadas e mal digeridas) aos prédios nomes menos “nacionais”: Tour Elysée, Edifício Vernon, Edifício Modus Vivendis, América Plaza, entre outros, cujas designações uma nova gargalhada substituiu agora mesmo.

E “o povo”? O povo, esse, deve orgulhar-se da "nova cara da cidade de Luanda", enquanto ainda vai tendo o direito de pensar em bairros com casas dignas, escolas para os meninos, hospitais, jardins, lojas e todos os postos de trabalho que poderiam ser criados em bairros diferentes dos condomínios de luxo com piscinas, ginásios, saunas e seguranças para guardarem a vergonha que os muito-ricos não têm.
Bairros que substituam as crateras de água putrefacta e lama onde kandongueiros, camiões, cães, viaturas ligeiras, jipes e pessoas - todos em iguais condições de precariedade - se cruzam diariamente (num "subúrbio" que transborda já para o "asfalto"), apressando-se, em vão, para chegar a tempo aos empregos e às escolas.

Que fique bem claro que sou contra o progresso, se este for construir, a alta velocidade, edifícios de vidro, com climatização artificial, verdadeiros fornos, gastadores de energia num país onde as fontes renováveis e alternativas são mais que muitas.
Sou contra o progresso, se este for equivalente a futilidades (e tudo o que isso implica e tem implicado) do tipo: “o meu Hammer é mais potente que o teu [onde é que já vão os Mercedes, benz(a-os) Deus!...]” ou, “eu vou este fim de semana fazer compras a Paris, queres vir?”, ou ainda, “daqui a três meses casa-se a minha filha kasule, vou encomendar tudo no Brasil”.
Porra, só me fogem os olhos para "estas merdas"!!!!

Nesta foto, mais recente, pode ler-se melhor (acho que falta o acento no "U" de público), mas as bandeiras, já esfarrapadas, transformaram-se, entretanto, em trapos.

9 comentários:

-pirata-vermelho- disse...

Mesmo que virasse a cara... entrava-lhe tudo pelos olhos dentro, vindo de todos os lados.

Pisgue-se enquanto tem tempo.

Isso, aí, como isto, aqui, só mudará depois de uma profunda e imprevisível 'reviravolta'; entretanto, piora!

Anónimo disse...

Belo texto! Sem dúvida uma expressão sentida de quem está atenta ao dia-a-dia da capital angolana.
O que posso dizer? Coragem? Acho que só se for para continuar a escrever textos assim. De contrário, as pessoas com esta lucidez sabem bem defender-se.
Um abraço
Victor Lemos

Pitigrili disse...

Muito piores são as "merdas" que não se vêem...
Têm esses prédios enormes estacionamento para meter todos os Hummers dos que lá moram ou trabalham?
For reforçada a rede de esgotos para receber toda a "produção" que de lá vai sair?
E haverá água para os abastecer ou continuarão a depender dos camiões-tanques?

Toke disse...

Essa do "Pisgue-se enquanto tem tempo." é que me deu gaça! Como quem muda de par de sapatos! «Ó Maria!, traz aí as botas de montanha qu'isto só muda com um terramoto!»

Mas o caso é muito pior: a marginal da baía de Luanda vai ser completamente engolida e descaracterizada pela nova mega-marginal programada para ir da Petrangol até ao embarcadouro do Mussulo.

Só me admira como é que ainda ninguém se lembrou de mudar de lugar a fortaleza de Luanda. Talvez ali fosse um óptimo lugar para um mastodonte de 250 andares e para antenas repetidoras de telecomunicações. Pelo menos as antenas já lá estão!!!

Salucombo_Jr. disse...

eles (os tais dos Hammers e das compras em Paris) pensam que a situação de aproveitamento e incopetencia vai durar para sempre, e mesmo que nao seja na epoca da minha geração (que tambem já não acredito), chegara o momento em que a queda sera inevitavel.
tudo tem um fim, perguntem ao R. Mugabe como se sente hoje? o dele já pisca-lhe, acredito eu!

paterhu disse...

De facto nao podemos olhar, olhar diariamente e nao ver.
Nao podemos deixar de ver.
Eh como a mentira tantas vezes repetida e que se torna verdade.
Nao!
Ha que denunciar, de todas as formas.
Mario Tendinha

aNa disse...

excelente post, e pelo que percorri de fugida, excelente blog.
vou ler tudo! tudo!
assim de repente, o prédio da Fazenda faz-me lembrar os engraxadores que havia por debaixo das arcadas.
um abraço!

gaviao disse...

O pior pesadelo, advém de haver um nível cultural zero, para as energias alternativas e para a informação sobre alterações climáticas.
Os angolanos, não vivem em Marte e, dentro de pouco tempo terão que arrepiar caminho, quer queiram ou não. No entretanto, é preciso estar contra.
Impressiona-me também a substituição de um determinado tipo de arquitectura, por outra coisa ( séc. XXI, dirão), que não é nada. Mas, dou de barato o facto de ser em Luanda. É igual por todo o lado, com raras excepções.
Em Lisboa, a baixa pombalina e a Av. da República, já só existem nas memórias.E em muitas outras cidades europeias e americanas é assim.
Qualquer downtown que se preze é um amontoado de caixotes com vidros.
É, óbviamente a manifestação da enorme incultura de muitos povos. O de Angola é só mais um, engolido na voracidade de um globalismo supercapitalista.
Um dia, muito próximo, começaremos todos a pagar a factura.
Um abraço
GED

O'Sanji disse...

Claro! Olhar acostumado a reparar em tudo o que a alguns mortais passa despercebido... apesar de tão flagrante!
Beijo