Elas estavam desde manhã muito cedo na pista do aeroporto. Esperavam, para participar nas despedidas ao "chefe".
Mas, à 1:00 h da tarde, o avião nem sequer havia saído de Luanda e depois eram mais umas horas até ao Moxico (outra vez o Moxico!...).
No meio de tantos "
mwatas" (o correcto é m
iyata), só eu achei um escândalo aquelas mamãs estarem há tanto tempo em baixo de sol, sem comer e sem qualquer justificação.
Quando lá cheguei, as caras delas estavam trancadas. Entraram no autocarro e alguém que surpreendentemente me conhecia, apresentou-me.
" -
Tunanumeneka!", eu disse.
" -
Ewa!", responderam-me satisfeitas. As caras delas mudaram.
Durante a viagem, cantaram para mim e saudaram-me por ser mulher, como elas (traduziram-me).
À mesa do "restaurante" passei um dos momentos mais intensos da minha experiência enquanto investigadora. Dando-se conta que eu percebia (e, timidamente, balbuciava) algumas palavras em Ucokwe, mas, principalmente, que eu sabia das coisas (e de alguns segredos) do povo ao qual pertenciam, fizeram-me as confissões mais fantásticas que eu jamais ouvira, sobre o ser-se mulher
cokwe.
"-
Hanjika!", ordenavam-me, para eu falar e perguntar.
E eu, desconcertada. Sem saber como gerir tal cumplicidade e confiança. Não fotografei, não filmei, não tirei notas e pouco perguntei. Frui o momento.
Comemos e rimos.
De regresso ao aeroporto, convidaram-me para dançar. Percebi o desafio e aceitei! O asfalto da pista queimava-me os pés. Aguentei firme! Ofereceram-me um pano que me apertaram à volta da cintura. Discretamente, todas olhavam para mim enquanto dançávamos. Os tocadores também estavam atentos.
Foi quando me dei conta da presença dos responsáveis da província e do Ministério da Cultura que avançavam na nossa direcção.
Contra a vontade das senhoras, parei.
Já no avião, pensei no que me havia dito o principal
mukwa ngoma do grupo:
"- Nunca vimos um branco dançar assim. Sim, senhor!"
Wino wa Cikota quer dizer dança da tradição, do início, antiga. É o nome do grupo de dança tradicional ao qual pertencem estas mulheres, especialistas na Ciyanda, uma das principais danças cokwe e executada sobretudo pelas mulheres.