Quinta-feira, Março 30, 2006

Rainha angolana... na revista Máxima

« À despedida, o governador, reparando que a escrava se mantinha acocorada na posição de assento, perguntou à altiva Jinga porque não a manda levantar, ao que a sobranceira guerreira angolana terá respondido: “Já não preciso dela, nunca me sento duas vezes na mesma cadeira!”»

Quarta-feira, Março 29, 2006

As três Marias e o largo do Kinaxixi

As coisas que neste largo se viram!... As coisas que este largo viu!
... E ainda vai ver, porque o próximo "melhoramento" será transformar o mercado do Kinaxixi em centro comercial. Maravilha!... Um local "cosmopolita", um antro de consumismo, uma "cena modernaça", uma loja bwé big com bwé de lojas e cinemas lá dentro onde o povo "não vai pisar os pés". Fixe!!!!
Fixe, porque há uns quantos que vão poder "se dar" com a "massa" que vão ganhar. Os novos "exploradores do povo"? Nãaaaaaao! Claro que não. Empresários de sucesso numa Angola emergente e país de futuro. Táuas!!!


Maria da Fonte
Maria do Blindado
Maria (rainha) Jinga

Perante o que escrevi já não tenho coragem para dizer mal desta estátua. Voltarei à rainha mais tarde.

Segunda-feira, Março 27, 2006

José Mena Abrantes - O nome do Teatro em Angola


"Esta obra, dividida em dois volumes, levanta o véu para uma outra faceta do ficcionista, poeta, dramaturgo, actor, director de cena, Mena Abrantes, mas principalmente do Grupo Elinga Teatro, ponto de partida do escritor para um estudo e uma teorização do estado do teatro angolano em geral.
O primeiro volume aborda a história do Teatro em Angola, dando relevância aos primeiros dez anos da independência daquele país.
No segundo volume, por sua vez, Mena Abrantes disponibilizou um espaço para a opinião de outras figuras da sociedade angolana, que publicaram os seus pensamentos sobre esta área na comunicação social de Angola, tais como José Redinha e Pepetela, entre muitos outros.

Mini-Biografia: José Mena Abrantes, nasceu a 11 de Janeiro de 1945 em Malanje, onde estudou até aos 15 anos.
Concluiu o liceu em Luanda, tendo-se licenciado em Filologia Germânica em Lisboa (1969).
Viveu exilado na Alemanha Federal entre 1970 e 1974, ano em que regressou definitivamente a Angola e se tornou jornalista.
Em 1975, participou na criação da agência noticiosa ANGOP, a cujo quadro directivo pertenceu durante 9 anos. Antes de ser nomeado assessor de imprensa do Presidente da República, cargo que ocupa desde 1993, foi responsável pelo sector de informação e divulgação da Cinemateca Nacional.
Faz teatro há mais de 30 anos, dirigindo, desde a sua criação em 1988, o Grupo Elinga Teatro, que tem participado com regularidade em festivais de teatro em África, Europa e América.
Mena Abrantes, publicou até hoje doze obras de teatro, duas de ficção em prosa, duas de poesia e dois estudos sobre o teatro e o cinema angolanos. Ganhou por três vezes (1986, 1990 e 1994) o Prémio Sonangol de Literatura.

Obras Teatro: Ana, Zé Zé e os escravos; Nandyala ou a tirania dos monstros; Sequeira, Luís Lopes ou o Mulato dos prodígios; A Orfã do Rei; Teatro I e II (12 peças).

Ficção/Poesia: Meninos; Caminhos Desencantados; Objectivos Musicais; O Gravador de Ilusões; Na Curva do Cão morto.

Estudos: Cinema Angolano - Um passado a merecer melhor presente; O Teatro Angolano, Hoje

FONTE: Luandadigital.com

Sábado, Março 25, 2006

Hoje voltei ao Lwena

Sem perceber como, não tinha mais carga na minha máquina de filmar. Mordi-me por dentro, na raiva de ter falhado.
O chefe estava no chão, sentado. A kwita roncava à força dos seus músculos.
Num ataque daquele romantismo absolutamente dispensável nestas situações, quase acreditei que ele “não estava ali”; Os seus olhos pareciam parados, em êxtase.
O corpo, todo, estava envolvido naquela relação.
Lembrei-me que a máquina de fotografar também captava imagens em movimento.
David Mpwia, Jacinto e Francisco Gabela tomavam conta dos outros instrumentos: ngoma ya kasasulwilo, lundamba (uma espécie de dikanza, mas em metal) e os mikakaji (sing. mukakaji) para marcar o “contra tempo”.
Mas Maleka estava atento. Longe de estar “fora de si”, controlava os músicos, os bailarinos e os meus movimentos - que tanto tentei discretos.
Quando terminou, perguntou-me: Filmaste tudo?
Tinha-se apercebido de que, naquele momento, eu apenas me concentrara na performance dos músicos.
Hoje voltei ao Lwena. Tive saudades.
Enquanto lá estive choveu todos os dias e eu dancei com o grupo Kalofulofu Wino wa Matemba...
Foi bom.

[Clicar na foto]

Quinta-feira, Março 23, 2006

Orlan e a "Carnal Art"

Orlan Orlan 5
«... Carnal art transforms the body into language. Reversing the biblical idea of the word made flesh, flesh is made word. Only the voice of ORLAN remains unchanged. The artist works on representation
[Para aceder ao texto integral seguir os passos: home page > texts > fundamentals > carnal art]

Orlan 4 Orlan 3
Sobre o documentário "Orlan - carnal art": Aqui...
Mais sobre Orlan: Aqui...

Quarta-feira, Março 22, 2006

Ajuda


(Infelizmente não posso colocar a origem da foto. Foi-me
assim enviada; mas quis partilhar um sentimento...)

Terça-feira, Março 21, 2006

Mais heróis do mar... e da terra (lusa)

Quando a dipanda chegou, eu era kandengue. Mas, dentre as coisas que sempre me lembro de ouvir, ainda no tempo colonial (português), estavam os comentários, nada elogiosos, sobre a "colecção" de estátuas dos "heróis" portugueses espalhadas pela cidade de Luanda. De facto, e olhando bem para esta galeria, apenas posso reprimir uma sonora gargalhada (dada a falta de elegância que tal representa), porque... um sorrizinho, sempre me escapa...


Afonso Henriques & Vasco da Gama

Paulo Dias de Novaes & Luís de Camões

Pedro Alexandrino & Salvador Correia*
(*de Sá e Benevides)
Nota: Todas elas moram hoje dentro da fortaleza de S. Miguel e, apesar de algumas "esmurradelas", até estão com bom aspecto. Tiveram mais sorte do que a Maria da Fonte que foi espatifada ("estraçalhada") com cargas de dinamite. Logo ela... a única estátua de que eu gostava!...
Coisas da história...

Sábado, Março 18, 2006

Os "Heróis" do... mar (?)

P: Quem é? Onde estava? Onde está agora? Alguém sabe?
(Estou a referir-me à estátua, claro)


R: Diogo Cão (o plantador de padrões). Não me lembro onde estava a estátua antes da independência. Agora está à entrada (teve sorte!*1) da fortaleza de S. Miguel, monumento classificado*2 como património nacional e actualmente Museu das Forças Armadas.

*1 Ao que consta, este senhor era muito mau. (Pelo menos é o que diz uma das versões da história)
*2 Mas este "nobre" espaço também é dignificado com importantes cerimónias tais como: festas de "gente bem" (Só gente gira! Feios e pobres não entram), apresentação de revistas cor-de-rosa (fundamentais para a sobrevivência e estímulo de populações a viver miseravelmente), casamentos chics (à europeia), festas de aniversário de digníssimos integrantes do set luandense (esses que, de repente ficaram jet, digo, gente), apresentações de misses (imprescindíveis para tirar o país da crise), espectáculos de fogo de artifício (que nos infernizam com lembranças da guerra, durante duas horas de explosões coloridas com um intervalo de 15 minutos), etc. Claro que o povo é poupado a estes espectáculos deprimentes. NEM chegam perto!!

Sexta-feira, Março 17, 2006

"Corpusnágua"


Fotos de Rui Tavares ©
Lembrei-me...
Era dentro de água, num pequeno espaço...
O cacimbo espreitava mas ainda não era, e as folhas das palmeiras brincavam às sombras cinzentas com os projectores de luz intensa.
Os quatro corpos fragmentavam-se em formas de cores frias e difíceis de guardar.
É dança?... Não é... (?) Luanda nunca tinha visto. Assim... dentro de água.
As camisas brancas despindo o corpo ali... bonito; de movimento ensinado mas sentido.
No fim, P. levantava o corpo inerte de C. enquanto que W. cobria de pétalas os cabelos de V.
Na água, apenas o rasto de nós...

A música era esta:

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Quinta-feira, Março 16, 2006

A propósito de conceitos

Troca de / ou ideias em sintonia
A minha vivência pessoal e a experiência de mais de 20 anos a trabalhar no Ministério da Cultura de Angola (ya, comecei bwé cedo) e numa área delicada (Formação Artística), associadas aos meus parcos conhecimentos no campo da antropologia, levam-me frequentemente à reflexão sobre as questões da «identidade», um tema muito complexo, um terreno tão escorregadio.
Tão complexo e falacioso como os discursos sobre «cultura nacional».
Pela existência de diversos povos ou grupos etno-linguísticos, quer-me parecer mais sensato falar-se em diversas culturas.
Pensemos ainda nas distintas realidades urbanas (ou suburbanas) com as suas «tribos» ou grupos «periféricos» possuidores de traços identitários bem definidos e distintivos.
Há ainda outra palavra que me incomoda e com a qual não simpatizo muito: tipicamente. Parece-me um termo algo redutor a raiar o mesquinho, até...
(“tipicamente angolano, prato típico, tipicamente africano, trajes típicos, tipicamente... sei lá!”)
Resumindo (como se tal fosse possível): não acredito numa identidade angolana comum nem numa cultura nacional única. Prefiro aceitar a diversidade; várias identidades, várias culturas...
E para quem aprecia alguma demagogia, aqui vai a minha proposta: a riqueza (?) do nosso país não está no petróleo ou nos diamantes, mas sim na diversidade cultural!
[ Fui bem? ;-/]

Quarta-feira, Março 15, 2006

Música para as fotos de Luanda (nos posts abaixo)

Kalibrados é o mais recente grupo de hip hop angolano. Os seus integrantes são muito jovens, mas com a coragem necessária para apontar o dedo.
Utilizando uma das expressões angolanas actualmente na moda, podemos dizer que... "são as ketas que estão a bater".


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Terça-feira, Março 14, 2006

Afinal?!

Legenda: «- Porra! Afinal a Xicala está assim?!...». «- 'tá...»

Legenda: «- Vamos "mazé" aproveitar o pôr do sol, antes que alguém se lembre de lá construir umas clandestinas, também...». «- Yá!... Podes crer...»

Luanda: cidade fotogénica, i.e., nas fotos sai sempre bem...

No dia em que subi à fortaleza e olhei para baixo:

Nesta direcção, em frente, o Estádio do Coqueiros. Giro!...

A baía. "Aquela base"... Também e sempre... gira! (Sobre a luz , estou a sério.)

Era uma vez umas casinhas do séc XVII...

Depooois... as casinhaaaas.... ficaram assim! É giro?

... e era (outra vez) a Fábrica de Sabão que não se transformou num palácio!... (Claro! Tem que saber que isso "não é para quem quer, mas... para quem merece")
À direita, verde, a Escola do Grémio onde a minha avó foi professora. Em frente, o "imperialista" já não espreita; é orgulhosamente ostentado numa parede qualquer, engarrafado e gasoso, como convém... Ah! E vestido de vermelho. Giro, não?

Sexta-feira, Março 10, 2006

Na minha cidade...



Serenamente, a mulher sem pernas sentada à beira do passeio aceita o que lhe resta da sua criança, agora recolhida pelos braços da morte. Uma lágrima acaba de limpar nela as lembranças de como, apesar da guerra, foi feliz no momento de lhe nascer no kimbo, lá no sul.
Foto original Aqui

Segunda-feira, Março 06, 2006

O meu único haikai










Longe ainda
As pitangas embrião
Bálsamo em mim

Domingo, Março 05, 2006

Marcas


“Somos um país rico”, mas só temos duas estações do ano: a estação seca (cacimbo) e a estação das chuvas (usam chamar-lhe verão). E é perfeito, pois chove quando há calor e, quando há frio, nunca aparece aquela chuvinha inconveniente de gelar os ossos de quem já os tem demasiado à mostra.
Há tempos atrevi-me a um passeio fora de Luanda. E lá estavam eles, os imbondeiros; imponentes. A árvore de culto. Os troncos bwé grossos abraçados como gente possuindo-se, os ramos a saírem por cima com algumas folhas. Parados no meio da terra cor de laranja; as mukuas penduradas.
Lá mais para a frente comprei uma, no mercado.
Em casa lembrei o sabor daquele refresco que a velha lavadeira da minha avó fazia para nós. Às escondidas.
Bebi sozinha. Ninguém mais quis provar. Confesso que fiquei mesmo com aquela expressão muito nossa: cara de mukua , mas...
Ok, sem maka . Estava a kuiar , assim mesmo.
Era cacimbo, mas só durou três meses. Como sempre.

Sábado, Março 04, 2006

Ainda os pés e... as "chinelas"

Foto de Tonspi

Pés deformados, porque fora do "padrão" ou apenas... porque são diferentes dos "normais"?

(De repente veio-me à memória uma observação do meu professor de cinesiologia ao referir-se às "fantásticas possibilidades físicas" do corpo de um bailarino: "- Vendo bem, vocês são anormais." Elogio? Pois...)

Sexta-feira, Março 03, 2006

Os dados do nosso B.I. incluem a "raça" do portador

Regresso por outra linha, mas sempre de maximbombo.
Entretanto parei num tempo de frutos liláses e flores castanhas. As pessoas eram cor de laranja e estas eram... liláses.
Nada era diferente, mas tudo era desigual.
Um lugar de tempo estranho...
O meu relógio marcava 26 horas e 170 minutos. Era um relógio minúsculo com uma janelinha para o sol. Este era triangular e de um verde palidamente irresistível.
As minhas mãos eram, portanto, cor de laranja, a laranja que comia era lilás e a flor que tinha no cabelo era castanha.
Sentei-me no maximbombo branco com estofos cor de mel e despedi-me de todos. Ficaram felizes por me ver partir...
Fiquei alegre por ter de os deixar.
Ali, tudo era «ao contrário» e infinitamente belo!...

"A chuva tá vire!"



Yá... ainda estou por aqui.
Lá fora os carros passam assim depressa, as rodas a fazer lembrar o barulho quando pisam em cima da chuva.
Aquela chuva que quando cai não respeita ninguém. Decide começar e aleija mesmo. Ninguém acode!...
A tal chuva que quando aparece no Domingo de madrugada, já anuncia uma praia estragada na manhã seguinte.
Porque a nossa chuva é genuína. Chove e depois não fica a fazer sol de repente. Nada! Tem personalidade. Fica assim cinzento durante muito tempo a abrir devagar no nosso ritmo. Nas calmas... até limpar, às vezes só no dia a seguir.
E se chover mais na Segunda... Ah! Tá bom! Ninguém vai na escola e muitos nem vão bumbar. Os bairros ficam «cheios». Vamos fazer mais como então?
Apanhar kandongueiro de barco? Nada!
E a chuva, então? Hum!..., essa fica mesmo a gozar «por cima» das nossas cabeças...

Quinta-feira, Março 02, 2006

Era Abril de 2005

Ía todos os dias ao Museu Nacional de Antropologia, em Luanda. Lá trabalha o David. Nasceu Cokwe . É mais velho mas respeita muito o meu trabalho. Acredita em mim e confia-me os segredos da Mukanda. Acha graça quando eu o surpreendo com «coisas que aprendi nos livros» e com as palavras e nomes que tento pronunciar,
o melhor que sei, na língua dele.
Yá... é ele, o Mwa Mudiandu, que me conduz pela galeria das máscaras falando-me delas, da simbologia, das cores, das formas, dos materiais, das texturas e mostrando-me com orgulho as inscrições que ditou para as placas de identificação. É ele que me conta sobre as verdades, as mentiras, os medos; sobre o feiticeiro - nganga , o adivinho - tahi e o curandeiro - sambuki . É ele que, com
a sua simplicidade, me ensina sem mo dizer, que a minha graduação seria impossível sem ele, sem o Kavula, sem o Kwononoka... sem todos aqueles que sabem por viver ou ter vivido, de verdade, aquilo que nós, os das Universidades, queremos provar em teses e artigos científicos, verdadeiros amontoados de letras em palavras rebuscadas.

Absorvo cada palavra, cada gesto dele, o gravador ligado com a pequena cassete que nem reparo quando o estalido assinala o fim da fita. E assim... a tarde fica escura. Já são seis e meia.
Um dia disseram-me para não apertar a mão a ninguém. «Por precaução, nunca se sabe!... O vírus Marburg é mortal. É melhor usares alcoól para desinfectar.»
Naquela tarde, quando cheguei ao Museu, o David esperava-me no pátio. Estendeu-me as duas mãos, uma sobre a outra em posição perpendicular (sem se tocarem no espaço reservado à minha mão que ele nem repara diferente); o seu gesto habitual de respeito aprendido na tradição. Não tive coragem de pensar no vírus. Deixei-me cumprimentar, como habitualmente, pelo meu amigo de há muito tempo. Não limpei as mãos com álcool.
Sobre os Tucokwe , ele sabe (quase) tudo.
Sobre o vírus, apenas sabemos que mata.

Quarta-feira, Março 01, 2006

Sempre gostei de jogos... de palavras. E vocês?


Pescoço. Lugares. Joelhos. Anel. Saliva. Posso?. Bwé...

De todos os lugares os olhares recaem sobre ela; a saia de pregas deixando ver os joelhos ainda molhados da tua saliva.
O anel equilibra-se no parapeito da janela.
E novamente aquela voz no meu pescoço:

Gosto. Bwé...
Posso?


(E vocês?... Porque não jogam também?)

Hoje, quarta-feira das mabangas...

... é dia de ressaca. Os grupos carnavalescos descansam.
É o varrer das cinzas.
Hoje eu faço a minha homenagem:


Comandante Joaquim
- Grupo Kabokomeu -