Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

Ainda o nosso Carnaval...

... que já foi da Vitória, em Março e agora voltou a Fevereiro.
Que já ostentou as cinco quinas, a catana e a roda dentada e agora...?
Como disse, o nosso carnaval acompanha os tempos e as mudanças sociais. É dinâmico como o deveríam ser os demais sectores, mas nisso... pensa-se. (Logo.)

Domingo, Fevereiro 26, 2006

O carnaval em Angola

No campo da dança popular, o Carnaval é um excelente exemplo do fenómeno de assimilação e articulação de diferentes elementos culturais. “Brincado” essencialmente nas regiões litorais e intensificado a partir do início do séc. XX, assumiu sempre a sua faceta política, representando e caricaturando as situações sociais e as personalidades das diferentes épocas. Da sua hierarquia destacam-se o comandante e a “corte”, onde o rei, a rainha, os príncipes e os guardas, envergam coroas, elmos e roupas de cetim, lembrando as figuras da corte europeia. Paralelamente, a música e a grande variedade de danças como a Kabetula, o Semba ou Varina, a Cidrália, a Kazukuta e a Dizanda, claramente diferenciadas pelos seus ritmos musicais, passos, coreografia e indumentária próprios, são genuinamente africanas. Lembro aqui os nomes de grandes mestres e “passistas” como Joaquim António, “Tio Bastos”, “Tia Santa”, “Mamã Lalá”, “Zé Jindungu” e “Kafuxi”.

Danças do Carnaval angolano


Kazukuta


Semba - Varina - A corte


Kabetula


Dizanda

Sábado, Fevereiro 25, 2006

Mea Culpa

(Sempre gostei de associar, em textos, imagens a músicas. Agora estava a ouvir Allegri. Miserere Mei...)

Foto de Rui Tavares ©

Afago teu manto em êxtase contido, a minha alma desejando ardentemente que piedosa me entregues,
casta, a transparência da tua pele, o toque vermelho dos teus lábios, o teu andar manso sobre mim.
Só então poderei sossegar... e olhar, enfim, o altar vazio
de ti.

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

"Frida: Paisaje de si mísma"


Frida Kahlo

Arte? A que preço?

Nkisi Kongo

Peças como esta, não pensadas para ser "arte" não o eram [arte], de facto, até há algumas dezenas de anos atrás. Para tal, tiveram de ser arrancadas das suas origens em processos que se distinguiram pela violência. Seguidamente, elas eram esvaziadas da sua essência ao serem-lhes tirados o seu nome, o seu significado original, a sua identidade e a sua função.
Identificadas como "fetiches", "objectos de fertilidade" ou "figuras de antepassados" passam a estar expostas em museus como representantes da genericamente intitulada "arte Africana".

Porque está relacionado com este assunto, não deixem de dar uma olhada à apresentação do filme "FANG: an Epic Journey" realizado por Susan Vogel.

Também podem ver o trailler do filme.

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Angola às fracções

O verde ou o futuro




A água ou a porta aberta





O contraste ou... Angola

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Mulher tocando

J. S. Bach - Cello Suite N.1 in G major-Dur

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Ligo a música e ganho algum tempo olhando para a mulher sentada adivinhando-lhe os gestos de tocar.
Senta-te aqui (não te vais demorar), ao meu lado, e vê como é expressiva. Podes pensar o que quiseres, eu não oiço. Aceitas?


Mulher tocando violoncelo
Robert Bereny

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

Sona, os desenhos na areia


Os Sona (sig. Lusona) são os desenhos na areia practicados pelos Tucokwe.
Esta poderosa fonte de conhecimento e sua transmissão, podem deitar por terra a teoria de que as sociedades tradicioais angolanas são ágrafas. Infelizmente, como muitas coisas da tradição, estes desenhos estão a perder-se e cada vez se conhecem menos formas destes efémeros esquemas da literatura oral e sabedoria do povo cokwe.



Cada desenho possui uma mensagem, um provérbio, um mito, uma canção ou um conto. São desenhos que estimulam a oralidade, a criatividade, a fantasia e o talento de quem está em acção. São aprendidos e ensinados na Cota [tshota], normalmente pelos homens, embora haja mulheres que dominem bem o seu conhecimento.
Execução: Primeiro marcam-se os pontos (geralmente com os dedos indicador e anelar) e depois traçam-se as linhas, preferencialmente sem se levantar o dedo (indicador).
Os três desenhos aqui apresentados (in, Desenhos na areia dos Quiocos do Nordeste de Angola, de Mário Fontinha) são representações do bailarino mascarado Cihongo (ver aqui e também aqui)

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

Redacção

“Carnaval da vitória é o porco mais bonito do mundo.
Meu pai que lhe trouxe no sétimo andar onde a comissão de moradores é reaccionária porque não quer porcos no prédio e o camarada Faustino tem kandonga de dendém e faz kaporroto a cem kwanzas cada búlgaro. Primeiro o nome dele era só carnaval. Depois que a gente ganhou a vitória contra o inimigo o nome ficou carnaval da vitória.(...) Carnaval da vitória é o porco mais bom do mundo porque quando veio na nossa escola a camarada professora deu borla.”

In, Quem me dera ser onda, de Manuel Rui

Coincidências

Para que ele conhecesse melhor aquela pessoa recém chegada de Luanda, resolvi mostrar-lhe algumas fotos do meu trabalho. À medida que estas se sucediam no écran do computador ele ia perguntando:
"- Essa, é você?" "- Essa... também é você?" Eu ia respondendo afirmativamente na maior parte das vezes. Ele reconhecia-me, apesar das metamorfoses exigidas pelos papéis que interpretava.
De súbito, ele parou em frente a esta foto que olhou mais demoradamente, até que me perguntou: "- E essa aqui também é você?!". No seu tom de voz saiu um misto de curiosidade, entusiasmo e espanto. E eu ali... sem saber o que responder. Sentada em frente àquele homem, quase estranho para mim, tão conhecedor dos segredos e tabus da máscara. Fixando-me na imagem veio-me à memória uma frase do meu grande mestre David Mwa Mudiandu e... finalmente, respondi-lhe que sim.
Olhou uma vez mais a fotografia e viu as restantes, sem nada mais me perguntar.
... No dia em que me despedi do grupo Kalofulofu wino wa Matemba ele, o chefe, referindo-se a mim, dizia-lhes: "- Ela até já entrou na máscara e tudo!"
Incrível! Exactamente a mesma frase que David havia dito a alguém quando, orgulhoso do que eu já aprendera, me apresentava a um kacokwe, seu amigo.
Percebi que para Maleka, como para Mwa Mudiando, no meu caso, a transgressão era até uma qualificação.
A ambos perguntei porque razão não me condenavam por esta "desobediência".
E eles responderam sem hesitar.

Presente de uma amiga


"(...) existe uma 3ª espécie de observadores, talvez os verdadeiros, que começam pelos olhos até à boca e daqui voltam aos olhos para em seguida descerem à
boca e não mais se libertarem. Estes compreenderão a ternura, o mutismo, a severidade, o grito, da máscara de Mwana Pwo... Por isso ela é enigmática."

In, Mwana Puó, Pepetela

Domingo, Fevereiro 19, 2006

Cedo

Sábado, Fevereiro 18, 2006

Tarde


Fomos depressa. Ainda assim, o tombar da tarde apanhou-nos a meio do caminho.
Quando chegámos à Baía Azul a noite apareceu, ainda tímida, para nos receber.
Foi quando a fotografei.

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

Konkomitantemente, Mankakas!

Uma experiência. Escrever como se fala em Angola (transcrição fonética?). Mas na gíria. As chamadas "corruptelas", uma grafia possível (porque não?).
Apesar de alguns aspectos do "português falado em Angola" se saldarem em erros, de facto, relativamente ao dito "português padrão", a linguagem popular não deixa de ser um laboratório, um lugar de inspiração para os escritores angolanos, um exemplo de criatividade, uma mostra de dinamismo.
Mankakas ou Mankakoso, ele próprio um belo exemplar do "puro" kaluanda actual. "Ambi" (ambicioso), mulherengo, "bizneiro" (pequeno negociante ou negociador), "embarrado" (aldrabão, que se faz passar pelo que não é).
Clicar aqui

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

Ainda o corpo modificado

"Scarification and other forms of body decoration were traditionally considered marks of civilisation. They distinguished the civilised, socialised human body from the body in its natural state and from animals." (Susan Vogel,1986)

Olhar

Sou angolano. Os meus direitos são iguais aos teus. A minha fome é igual à tua. O meu amor é igual ao teu. As minhas lágrimas são salgadas como as tuas. O meu sangue é vermelho como o teu.
O meu corpo... o meu corpo é diferente do teu. É o meu.

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

Ao princípio estranhei, mas depois...

Yá... era bwé estranho ver uma população inteira tão "disciplinada" durante um espectáculo em que o kuduro "rebentava" em palco, pelo ritmo dos diversos conjuntos, bandas e intérpretes. Estes, desde os mais vestidos às menos ataviadas, pretendiam levar o público "ao rubro" o que, às vezes - e depois de muito gritarem e incitarem o people -, lá calhava. Mas a "ordem" era prontamente reposta.

No fim, tudo correu bem, sem "desmandos", nem "problemas de maior". O cordão de polícias de azul (com metralhadoras verdadeiras) cumprira, com êxito, a sua missão de manter a tal "ordem" pública.

Pedi a alguém que tirasse a fotografia para mim, pois o cano da arma podia não simpatizar comigo.

Yá, foi só isso; apenas por isso, claro...

Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

"Replay"

(Apesar da "moda" ter recuperado, em certa medida, a práctica das tatuagens, nem sempre nos lembrarmos das motivações que conduziram o ser humano à utilização do seu corpo enquanto superfície de inscrição.)

Com os dedos, sentindo a rugosidade das letras nas teclas; assim fui...
Tacteando o Nu

Um momento quase efémero

Então ela (a máscara) avançou para mim. Talvez a tivesse provocado com a minha câmara, apesar da situação de informalidade em que nos encontrávamos, os dois. Eu estava na roda. Ela (a máscara) movimentava-se no centro. Acho que, de repente, me percebeu. Eu era diferente de todos e o meu cabelo brilhava ao sol. Guardei a máquina e abandonei-me à sua reacção. Quando chegou perto, mas sem invadir o meu espaço pessoal, virou-se para o lado direito e continuou dançando, agora de costas para mim.
Não deixei de ficar aliviada pois, nunca é demais repetir que máscaras e mulheres raramente são compatíveis.
Decidi presenteá-la, como aprendi que se faz com os bailarinos mascarados que vivem da sua profissão. Aproveitaria a ocasião para a tocar, uma vontade reprimida durante anos, por proibição. Aquele era o momento do desafio (a mim própria).



Aproximei-me com o dinheiro dentro da minha mão que lhe estendi em gesto suave. O meu coração batia, mas batia muito.
... Ele agarrou a minha mão entre as suas, revestidas de duas meias pretas (nenhuma parte do corpo do mukixi pode ficar de fora).
O momento que se seguiu não sobrou para o poder reproduzir agora; Tão efémero e tão forte. Eu havia conseguido.
Recuei e ele seguiu-me, a minha mão ainda presa às suas. Depois, por breves momentos dançou só para mim.
Nunca lhe saberei o rosto, nem isso me deve preocupar. Para todos os efeitos dentro da máscara não há uma pessoa, pois ela representa o espírito de um antepassado.
E apesar da modernidade e de alguma desmistificação, como ainda é forte esse poder!

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

Angola. Viajar por terra é possível... (Clicar sobre as imagens)

A estrada

O rio

A Kanjala

O repouso

O vale

A curva

A aldeia


A recta

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Agora em Angola. Agora????

Pois é...
Assim até parece que o «kolô» continua a «kôlônizar» através dos cigarros que nós, na nossa "inocência", «importamos». E que mal fazem!...
(A propaganda ao tabaco não está proibida?)
E se no lugar de "Autênticos", voltassem a «importar» uns "Puros"?
És que: fumar daña su salud, mas... e dar assim uma «bandeira» dessas?!...

Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006

Ainda (ou de novo) o Lobito

Era assim, todas as manhãs.

A praia deitada aos pés da minha janela chamava-me, atraente nas suas cores, no seu cheiro e na sua textura de imaginar o meu corpo frio na água tépida. Depois, olhava para mim em jeito de sedução.

Sem pensar muito deixava-me ir. Seguia pelo corredor branco até ao salão de jantar, imponente nas recordações dos tempos em que se enchia de gente diferente. O sol entrando pelos vidros transparentes e tornando castanha clara a madeira que revestia as suas paredes.

A sala continua linda! Só eu e a brisa que brincava na porta entreaberta, dizendo-lhe dos segredos guardados por fantasmas antigos.

Era assim, todas as manhãs, enquanto eu, quase maquinalmente, comia.

O corredor branco

A porta entreaberta

Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

Obrigada, Maleka!

... No dia em que cheguei, alguém me apresentou o Maleka José: "- Este homem é que sabe das danças daqui. Domina tudo." Olhei para ele, pouco mais alto que eu; trazia um chapéu de palha, embora o tempo ameaçasse chuva. Cumprimentei-o e prometeu-me que me levaria onde eu quisesse para encontrar o que eu procurava. No trajecto para o almoço perdi-o e, quando lhe ligava para o telemóvel, ouvi do outro lado: "- Estou aqui."
(Noutras ocasiões comprovei a sua capacidade de aparecer sempre que era preciso, mas sempre sem se fazer notar. Aprendera na Mukanda a andar sem fazer barulho para não assustar a caça.)
Maleka era um homem atraente pelo que sabia e pela forma como se impunha no grupo. Dançava bem e tocava kuíta. "- Passei 1 ano e meio na tradição!" dizia-me, orgulhoso, sempre que me sentia alguma desconfiança. Um verdadeiro chefe tradicional, sem o ser, de facto.
Maleka
Pela sua mão fui integrada no grupo Kalofulofu Wino wa Matemba. Naquela tarde chovia. Muito. Fora e dentro do Cine Lwena. Mas nada impediu a sessão. A sala apresentava-se desoladora. As escassas cadeiras que haviam resistido estavam desventradas, com o recheio amarelo a aparecer, esfarelado pelo tempo e pelos maus tratos. As placas do tecto balançavam com o vento, embora logo tenha esquecido o medo de me cairem em cima.
Do écran, apenas sobrara a estrutura metálica; das colunas, apenas as enormes caixas de madeira restavam, por onde a chuva escorria agora em cascata. Mas sem inundar o palco, pois deslizava mansa e obediente pelas escadas laterais vermelhas, de cimento.
Segui o cheiro a fumo. Lourenço estava a aquecer os tambores enquanto o resto do grupo se vestia e fazia as pinturas no corpo, para que eu os visse no seu melhor.
"- Assim... 'tás a aquecer os batuques p'ra quê?" perguntei, sabendo de antemão a resposta. "- Ca Kwimba!...", respondeu-me.
De repente, esqueci-me do meu trabalho de "investigadora". A frieza de estar num teatro convencional acabara também. Rapidamente o palco se transformou no lwanzo da aldeia. Tudo à volta desapareceu. Só a chuva permanecia, morna.
Maleka mandou que me "ataviassem" e dois homens abeiraram-se de mim colocando-me a mulamba e o muyia. Ordenou ainda que me pusessem o cinto (muyia) maior, para que eu sentisse o peso daquele adereço fundamental da dança Ciyanda. Todos acharam que me iria aleijar, mas eu fiz questão de aceitar o desafio.
Os tambores estavam prontos. David colocou o seu muiya e posicionou-se do meu lado direito.
Começámos. Maleka, em tom determinado, dava as Mianda (sing. Mwanda) ou as ordens obrigatórias. O grupo acompanhava cantando e batendo palmas. Sorriam, num misto de curiosidade e satisfação.
Não parei de dançar, seguindo sempre o David que, atento aos meus movimentos, atendia também aos akwa ngoma (tocadores de tambor) os quais, por sua vez, ouviam o "chefe".

... Quando tive coragem de perguntar como me tinha saído, olhei atentamente para os olhos de Maleka José, para o ouvir melhor: "- Você foi bem, sim senhora. Já és quase uma kacokwe!" O sorriso dele era bonito.

Foi o momento mais feliz da minha estadia pelas terras do Moxico, antes de encontrar, no último dia, a cumplicidade das "mamãs" do grupo Wino wa Cikota.
(Talvez vos venha a contar...)

Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006

Voando...

mar 1
... E pela primeira vez, há muitos
anos, saí de Luanda por estrada.
mar 2
No Lobito, o mar parece igual a todos
os mares, mas não é.
mar 3
Tem sabor a liberdade.
mar 4
Como era quando eu era pequena...