Domingo, Outubro 15, 2006

Hibernação

7 comentários:

Kelly Cristina disse...

Phwo, para dizer que passei outra vez por aqui - e que invejo bwé a tua capacidade de manter o blog ativo e cheio de coisas interessantes (mas é inveja do bem!). É que Luanda está sempre a mexer, muito mais que Paris! Um grande abraço, Kelly.

JotaCê Carranca disse...

um beijo

Goncalo Veiga disse...

Parabéns pelo blog... Os textos e as fotos são lindos.

Denudado disse...

Cara amiga, importas-te de me esclarecer sobre a cruz típica dos Tucokwe, que aparece quase sempre (ou mesmo sempre) na testa da máscara mwana phwo, assim como em escarificações, etc.? Julgo saber que esta cruz só é usada pelos Tucokwe e mais nenhum povo. Sabes qual é a sua origem? Que simbolismo é que tem?

Desculpa estas minhas perguntas, mas a única explicação que encontrei para esta cruz foi que ela era de origem cristã. Será mesmo? Permito-me duvidar. Quanto à sua função e ao seu simbolismo, se é que os tem, não sei nada.

Quaisquer que sejam as respostas às minhas dúvidas, a verdade é que é uma cruz belíssima, na sua geometria tão simples e harmoniosa.

Phwo disse...

Denudado:
Como sabes, tenho muito gosto em responder, dentro dos limites do que sei, às questões que me são postas.
De facto, esse motivo cruciforme tão belo como dizes e tão desgastado em Angola (porque utilizado "a torto e a direito" para decorar tudo e mais alguma coisa, como logotipo de empresas e etc...) chama-se Cingelyengelye e não me tem sido fácil encontrar uma resposta concludente para a sua significação.
Actualmente, e pelas informações que obtive durante os meus estudos, ela tem uma função puramente decorativa. Digamos que se trata, efectivamente, de uma marca identitária dos Tucokwe (repara que as máscaras femininas de origem lwena, têm este motivo, mas em forma curvilínea).
Para o Cingelyengelye ouvi ainda as designações de Samanana e de Kalitoza palavra que, segundo M-L Bastin (1961), deriva do termo português caridade ou caridosa.
Como tu referes, a literatura é unânime em afirmar que este símbolo é uma adaptação da cruz da Ordem de Cristo trazida pelos portugueses aquando dos seus primeiros contactos com as populações locais. De igual modo, poderá ser uma representação de Deus ou Nzambi.

É tudo quanto sei.
Um abraço

Denudado disse...

(...)a literatura é unânime em afirmar que este símbolo é uma adaptação da cruz da Ordem de Cristo trazida pelos portugueses aquando dos seus primeiros contactos com as populações locais.(...)

Phwo, o que a literatura diz não faz sentido nenhum! Os primeiros contactos deram-se no litoral, a centenas e centenas de quilómetros de distância do Leste de Angola, do Katanga e da Zâmbia. A não ser que os livros de História estejam errados e Diogo Cão não tenha desembarcado na foz do Rio Zaire, mas sim no Rio Luena... :)

As naus e caravelas portuguesas exibiam a cruz da Ordem de Cristo nas suas velas, porque o Infante D. Henrique era o grão-mestre dessa mesma ordem. A cruz significava, então, que as embarcações e as suas tripulações estavam ao serviço do Infante. Só depois da morte deste é que a expansão marítima portuguesa passou para as mãos da coroa, isto é, para as mãos do rei D. João II.

Por outro lado, os missionários que penetraram por África adentro não ostentavam a chamada Cruz de Cristo, porque esta cruz simbolizava uma ordem religiosa e militar que não era a deles, se é que pertenciam a alguma. Por maioria de razão, os pombeiros e exploradores do sertão também não a usavam, evidentemente, por serem leigos.

Aposto que a primeira vez em que os Tucokwe viram a Cruz de Cristo foi já em pleno séc. XX, pintada nas asas dos aviões da Força Aérea Portuguesa.

Para que fizesse sentido a afirmação de que o cingelyengelye tem origem na Cruz da Ordem de Cristo, teríamos que encontrar esse mesmo símbolo (ou outros muito semelhantes) entre as populações do litoral, o que não acontece.

Não me custa admitir que o cingelyengelye tenha origem religiosa, mas que derive da Cruz da Ordem de Cristo é que não acredito. A semelhança das formas será, certamente, uma coincidência.

Phwo disse...

Caro amigo,
O meu interesse pela iconografia é, de facto, secundário com relação ao meu objecto principal, a dança. Daí eu não ter ido muito longe na investigação sobre esse assunto.
No entanto - e porque essa também foi sempre para mim uma inquietação - todos os entrevistados com quem falei, me disseram que a cruz era decorativa (e que sempre o foi), o que me leva a pensar que a sua eventual significação religiosa ou outra, há muito se perdeu.
Quando falo de literatura referia-me principalmente a autores que podemos considerar recentes como Redinha, Lima e Bastin, sendo que esta última é uma das maiores estudiosas da etnografia cokwe.
Sobre a cruz ter ou não chegado aos Tucokwe, e como ela terá chegado é também para mim uma incógnita. No entanto, sabemos que as populações africanas deslocavam-se bastante em todas as direcções. África tem uma forte tradição em migrações (iniciadas muito antes da chegada dos europeus). Nestas viagens muito se assimilou, muito se perdeu e muito se transformou. Quantas vezes a fonte desaparece e o produto desenvolve-se noutro lado (olha a capoeira, por exemplo, que se perdeu em Angola)?
Por outro lado, seria necessário precisarmos desde quando essa cruz (porque será que lhe chamamos cruz?) aparece na testas das máscaras. Existe uma imagem de Henrique Dias de Carvalho (1890) que retrata um mascarado hoje identificado como Phwo ou Mwana Phwo, e nada tem na testa.
A maioria esmagadora das máscaras que existem hoje são do séc. XIX (finais) e séc. XX, altura em que se começou a dar visibilidade à arte africana na Europa (altura em que estas e outras peças começaram a ser arrancadas aos seus donos acusados de, com elas, praticarem feitiçarias e magia negra, altura em que a imposição religiosa associada à ocupação colonial se tornou mais violenta). Nessa tempo, já os portugueses andavam, portanto, pelo interior.
Tens razão na tua dúvida que se junta à minha. Até um de nós (ou outra pessoa interessada) descobrir dados que nos levem a uma certeza, vou continuar a citar a literatura, sem fazer dela as minhas palavras, como fiz com o fragmento com que inicias este teu comentário, que agradeço.
Volta sempre.