Terça-feira, Outubro 03, 2006

Eu, o hotel e... a "Própria Lixa" *

Havia tempo que não saía de Luanda. Coisas da guerra...
Mas ali estava eu olhando uma paisagem verde cortada por uma serpente de lama vermelha. Cheguei-me à frente. Do ar podia ver a impressionante ravina que conhecia da televisão e que rasga no solo um sulco profundo. Lwena continua em perigo.
«- O quarto 25 é bom, sai água um bocado quente», disse o empregado do hotel engraçado na sua farda gasta, de há bwé. Atirou o meu saco preto para dentro do quarto e saiu mais rápido que o meu gesto de procurar uma nota dentro do bolso dos jeans. (Ainda bem, pois não sabia quantos Kwanzas lhe dar.)
Os «dirigentes» do Ministério ficaram numa ala onde os quartos tinham alcatifa e ar condicionado. Eu não corri esses riscos; (en)calhei no corredor dos «técnicos» e... dos artistas.
O quarto 25 não tinha ar condicionado, nem alcatifa, nem água quente e cheirava fortemente a insecticida. Não havia baratas (deviam estar atordoadas como eu).
A minha porta ficava elevada do chão uns quatro centímetros. «Dormi» com a luz acesa para não dormir e dar conta de algum rato que entrasse. Receava ainda que alguém me irrompesse pelo quarto, pois o trinco mal prendia a porta que abanava ao mínimo movimento.
Passei uma noite infernal, de barulho, até às duas com recomeço às seis da manhã. O novo dia encontrou-me de mau humor. Foi quando me bateram à porta. O diálogo foi (quase) surreal.
- Bom dia.
- Bom dia.
- Desculpe, a moça é a própria lixa?
- Perdão?!!!
- A própria lixa.
- Própria lixa?????
- Sim, a kudurista.
- Acha-me com cara de kudurista?
- Não sei, né?... Podia ser...
- Pois... mas não sou!
Fechei a porta estragada, mas com o número 25 em belos algarismos dourados.

* Ontem falei com um amigo no Lwena e recordei com ele este episódio passado em Janeiro. Resolvi "recuperá-lo".

15 comentários:

daniel sant'iago disse...

Kudurista...?

daniel sant'iago

maria fro disse...

Phwo, por um caminho tortuoso, cheguei até a tua casa, passei a tarde aqui a visitar teus (des)cons(c)ertos...

Que grande, menina que tu és! Como é delicioso lê-la, que grata surpresa encontrar densidade e leveza, assim, caminhando juntas, sem se chocarem.

Tu provocas o tempo todo um deslocamento saudável e generoso em nosso olhar.

Meu desejo, nesta tarde que fujo à pesquisa e aos cronogramas burocráticos é ficar aqui por muito tempo a me deixar surpreender e me enriquecer.

Espero muito trocar muitas figurinhas.

PS1, sou um pouco "iletrada" como o Daniel em algumas palavras e expressões culturais, quando estas são muito específicas), agora faço coro com ele (só agora) porque também não sei o que significa "lixa".

Ps2- o primeiro comentário postei nos posts sobre mulheres, máscaras, escarificações que muito me encantaram.

Phwo disse...

Daniel:
Ahahahha! Sim, kudurista! Explico: Kudurista é um/a intérprete de um estilo musical relativamente novo em Angola, o Kuduru. É uma música com um ritmo alucinante, numa mistura de rap com o nosso (tradicional angolano) kazukuta. As letras são de intervenção social e bastante agressivas, de uma forma geral.
Em Angola existe uma certa relutância relativamente a este estilo, pois alguns músicos excedem-se nas letras chegando a ser muito, mas mesmo muito debochados, agredindo os ouvintes com textos absolutamente indecorosos.
Eu, pessoalmente, gosto muito de Kuduru, mas claro que sou contra essa corrente a que me referi por último.
A piada deste episódio está em o rapaz não se dar conta que uma pessoa com as minhas características físicas ;-) jamais poderia ser kudurista.
Pelo menos há uma coisa interessante em tudo isto: ele não reparou que eu era... "clara".
Bj.

Maria:
É bom saber que gostaste da visita e que vais voltar!
Dou-te as boas-vindas e digo-te que, por mim, podes ficar o tempo que quiseres.
Um abraço.

Quanto à palavra “lixa”, ela pode ter três significados: 1 – material (com areia grossa, por exemplo) que serve para polir; 2 – Forma verbal do verbo lixar, o qual, em português (calão) pode também querer dizer prejudicar; 3 – como adjectivo (uma pessoa lixada, por exemplo) pode significar em Angola, uma pessoa extraordinariamente boa em qualquer coisa (sempre em calão). Digamos que a conotação da palavra lhe é dada pelo contexto em que é utilizada.
Neste caso, e associado à palavra “própria”, significará que é mesmo ela quem “lixa” os outros ou então que ela é a melhor. Não sei, nunca lhe perguntei o significado exacto do seu “nome artístico”.

maria fro disse...

phwo, voltarei, tenha certeza disso. Tua casa tem alma.
Obrigada por me explicar o adjetivo (os demais significados são comuns aqui no Brasil).

Conhecer o que é o adjetivo lixa em Angola e o que é o Kuduru permite-nos ver a graça da situação. Aqui no Brasil a juventude das periferias majoritariamente negra criaram de uma maneira profundamente original o Hip Hop, minha hipótese é que as heranças nordestinas especialmente as do cordel, dos repentistas deram a base para a criação dos versos precisos metricamente sem que nunca tenham lido Camões e deram ainda mais a possibilidade da rapidez do desafio, um cantor termina um verso já desafiando o outro que rapidamente recomeça e num ciclo surpreendente falam de suas realidades, das duras condições das periferias, da violência policial, do racismo, do consumismo, das drogas.

É sensacional ver por exemplo um MC (mestre de cerimônia, aliás não é mera coincidência que os principais do palco dos grupos de hip hop sejam chamados de MC, muitas outras manifestações culturais negras no Brasil tem essa hierarquia adquirida pelo aprendizado e o principal é nomeado de mestre)desafiar um repentista: encontro de gerações pela arte.

Quanto ao maria fro é apelido de antanho. Assinava crônicas e poesias como afrodite (em épocas que a rede não estava infestada delas), os amigos logo passaram-me a chamar de frô, daí gostei da sonoridade afro, flor, fulô, frô e assim ficou.

Quanto ao Ciranda, ontem foi dia de visitar baús de sentimentos, tirar dele, já meio empoiradas, as lembranças que nos trazem esperanças, aquelas como as chuvas na cabeceira do rio. Que bom que gostou. Grande beijo.

O'Sanji disse...

Frô,
"Es_clar(a)_ecendo": A dançarina kudurista tem o nome artístico de "Própria Lixa".
Mas a nossa amiga Phwo é a própria "clara". ;-)
Um beijo

maria fro disse...

Olá o'sanji, obrigada! Em tua casa abusei das questões :)

Phwo disse...

Olá!
Só para rectificar um pequeno lapso de O'Sanji: De facto, a "Própria Lixa" não é dançarina, mas sim cantora, intérprete do estilo "Kuduru".
Abraço.

O'Sanji disse...

Os "es_clar(a)_ecimentos" às vezes têm estas coisas. Pensa-se "es_clar(a)_ecer" a voz e sai nublada! Eheheh...
Desculpem...

paterhu disse...

Este post não tem nada a ver com o assunto que vem sendo comentado...
Apenas foi a forma que encontrei de deixar expresso à Ana Clara Guerra Marques os meus sinceros parabens pelo Prémio Nacional da Cultura hoje divulgado e que lhe foi merecidamente atribuido.
Muitos parabens
Mário Tendinha

Nelsinho disse...

Oi meninas!
Adorei o post e os comentários!

Beijos

Nelsinho

daniel sant'iago disse...

Obrigado pelos esclarecimentos!
Muito feliz pelo teu prémio!
Mereces... claro, clara!

daniel sant'iago

Anónimo disse...

Parabéns pelo seu merecido prêmio! Sou historiadora, brasileira e navegando na rede encontrei uma biografia sua. Confesso que fiquei muito curiosa ao ver a foto de uma linda mulher de pele clara, cabelos longos e composição longelínea. Trata-se da sua foto? Pergunto isso porque, lendo o episódio da "lixa" e os comentários, vc disse que jamais poderia ser uma kudurista, devido as suas características físicas. Por quê?
Obs. Eu coloquei como 'anônimo' porque não tenho endereço de blog, mas volto aqui pra saber a resposta. Aliás venho sempre pois seu espaço é um respiro pra alma da gente.

maria fro disse...

Phwo, acostumei-me a chamá-la asim e a descubro Ana Clara! e aí passo a entender um pouco mais as brincadeiras dos comentários dos amigos no post da "Lixa"
Parabéns pelo teu prêmio!
É bom termos nosso trabalho reconhecido, ano passado, depois de tantas críticas de fundamentalistas que desejavam inclusive tirar minha coleção para os pequenos do mercado recebi o Jabuti, foi como lavar a alma lanhada com ervas calmantes.
beijo grande.
Frô

Cangonja disse...

Cara historiadora brasileira,
Ontem escrevi este post: Clique aqui. Penso que estamos a falar da mesma pessoa.

Phwo disse...

Caros amigos: Muito obrigada pela vossa gentileza.

Cara amiga historiadora: Gostei muito da tua visita. Acho que a Cangonja já se encarregou de te ajudar.
Um abraço e volta sempre.