A função desta escola tradicional é situar o indivíduo dentro dos princípios e valores que regem a sua sociedade, tornando-o apto para o exercício dos seus direitos e responsabilidades. Os ensinamentos nela adquiridos permitem-lhe a sua movimentação sem traumas e com eficácia na pirâmide da vida do seu grupo social.
Durante o tempo de permanência na Mukanda, num isolamento absoluto relativamente à comunidade, os jovens iniciandos - tundanji (sing. kandanji) sofrem a metamorfose mais importante das suas vidas: despojados da sua identidade de criança, são preparados para assumir perante a sociedade o estatuto de adulto.

Há a morte e o renascer. Há o nome de leite e o nome que se usará futuramente.
Há os ilombola (sing. cilombola) ou ikolokolo (sing. cikolokolo) que tomam conta deles e lhes ensinam o que em tempos, também eles, viveram no recinto da Mukanda.
... E há a aprendizagem das danças que um dia farão de algum deles um bailarino profissional.
NESTA CANÇÃO, recolhida por Kenichi Tsukada na Zâmbia, um kandanji transporta água para o acampamento e chama pelos outros tundanji, que lhe respondem.
9 comentários:
Oi Pwo!
Interessantes (e ditáticos)estes teus textos sobre os Tucokwe.
Eu estive algum tempo no Luando, junto das quedas, em torno das quais a maioria dos kimbos era Cokwe mas, embora me interessasse por saber das tradições, não era tão fácil assim.
Um beijo
Nelsinho
É próxima a relação das pinturas do corpo com as faixas ao alto do Kaponya, não é?
Dá-me um exemplo de um nome de leite e do seguinte nome 'adulto', se puderes.
Obrigado
(Um abraço)
Sim, as riscas na kaponya, nos fatos dos mascarados (akixi) e nos tundanji possuem o mesmo significado. Uma segunda pele que "apaga" uma outra identidade.
[Aliás, essa kaponya representa um mascarado]
Nos rapazes, as cores consideradas opostas entre os Tucokwe - vermelho e branco - significam justamente a morte e o renascimento (vida).
Quanto aos nomes, vou tentar um exemplo; o nome que recebem na Mukanda é da escolha do pai, de um tio ou do próprio cilombola.
O menino entra com o nome Mudiandu ou Mateus, por exemplo, e quando sai pode vir a chamar-se António ou Cefu, mas sempre com a designação Mwa antes, que quer dizer Senhor.
Assim, o nome que usará até ser pai será Mwa António ou Mwacefu.
Já encontrei a palavra mukanda traduzida por "circuncisão". É verdade que a circuncisão é o apogeu da iniciação; marca o seu fim. Através da superação da dor causada pelo corte do prepúcio, o iniciando mostra que é digno da sua nova condição de adulto. Esta condição ficar-lhe-á indelevelmente marcada para o resto da vida.
Mas a circuncisão, em si mesma, não é o acto mais importante de todo este processo. Os cuanhamas até abandonaram a sua prática há cerca de século e meio. Com efeito, a palavra mukanda não significa "circuncisão". Ela significa "mensagem". Ora os novos conhecimentos, teóricos e práticos, que os iniciandos recebem durante todo o processo são a "mensagem". A "mensagem" é que é importante; ela permite que o novo adulto seja capaz de enfrentar o mundo com autonomia e responsabilidade.
O que significa 'pwo'?
(Agradeço a 'iniciação aos estudos de etnologia africana', aqui proporcionada pela mwana pwo e pelo mwa denudado)
Entre os Tucokwe, a operação da circuncisão é o primeiro momento - logo depois da entrada - dos rituais da Mukanda. É a primeira prova e hoje ainda assim acontece (apesar de muitos fazerem esta operação em hospitais).
Só depois da operação do corte, eles passam às demais aprendizagens. O canto e a história acontecem ainda durante o período da cicatrização. Só de pois vem a dança e as outras actividades em que os tundanji precisam de se movimentar.
Quanto ao termo Mukanda, existem diversos significados e um deles pode ser mensagem. Mas também é carta, livro, caderno (tudo o que dê para ler em papel). G. Kubik diz que vem do verbo kukanda que quer dizer proibir. Outras interpretações falam de recolhimento e afastamento. Ainda não cheguei a uma conclusão. Para já Mukanda designa o espaço ou acampamento, a instituição e o período de reclusão. "Fulano foi à Mukanda", engloba tudo isto.
Mas há muitas pessoas (Tucokwe, inclusivé) que continuam a chamar circuncisão, embora seja errado pois a Mukanda não se confina a tal.
Pwo (phwo) quer dizer mulher em Ucokwe.
Mwana Phwo quer dizer jovem mulher (mwana = filho; criança)
Mukixi wa Mwana Phwo é o bailarino mascarado que representa o espírito ancestral feminino.
BANZO*
Para a Profa. Yeda Pessoa, que ouvia em sua São José das Itapororocas e inda ouve e conduz pelo Mundo, eternas e ternas histórias de Mama África!
Muana, muana:
Kulayllai!
“Criança (negra):
Há muito tempo atrás!”
- Lá no murundu
Vovó e vovô
Plantaram guandu
E tudo o que é raiz, fulorô!!!
Inda há verde rama
E ôlho d’água
No fundo do quintal.
Moça que me ama
Esmaga minha mágoa
No moinho do beiral!!!
...Muana, muana...
Hoje tem farofa com guandu
Munguzá, vatapá, caruru.
Hoje tem histórias de saci,
Capoeira, batucajé,
Tem moças na lundu
O que mais quiser!!!
Assim, não vamos dizer:
Kosi, kosi, kosi!
Raiz e rama vão prosseguir
Olho d’água nos valer:
- Agô! Agô! Agô!
Notas: Palavras das línguas africanas.
* Componente da Poética Poranduba, Eco-Étnica, de Ademario Ribeiro, 2001, Salvador, Bahia, Edição do autor.
BANZO*
Para a Profa. Yeda Pessoa, que ouvia em sua São José das Itapororocas e inda ouve e conduz pelo Mundo, eternas e ternas histórias de Mama África!
Muana, muana:
Kulayllai!
“Criança (negra):
Há muito tempo atrás!”
- Lá no murundu
Vovó e vovô
Plantaram guandu
E tudo o que é raiz, fulorô!!!
Inda há verde rama
E ôlho d’água
No fundo do quintal.
Moça que me ama
Esmaga minha mágoa
No moinho do beiral!!!
...Muana, muana...
Hoje tem farofa com guandu
Munguzá, vatapá, caruru.
Hoje tem histórias de saci,
Capoeira, batucajé,
Tem moças na lundu
O que mais quiser!!!
Assim, não vamos dizer:
Kosi, kosi, kosi!
Raiz e rama vão prosseguir
Olho d’água nos valer:
- Agô! Agô! Agô!
Notas: Palavras das línguas africanas.
* Componente da Poética Poranduba, Eco-Étnica, de Ademario Ribeiro, 2001, Salvador, Bahia, Edição do autor.
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