... então encontrei-o deitado de bruços sobre o sonho.
Fingia estar ali, mas não. Dormia e o seu corpo contorcia-se. Inteiro. A boca semi-abera parecia um filme mudo... em suave branco e negro, os olhos sem pálpebras.
Encontrei-o. Ali. A tristeza esvaindo-se-lhe nos bolsos e os poemas encharcados em nada.
A garrafa partira. Lá dentro um grito enfeitava (-te); evaporando-te nos sons da terra.
A ilha. A pista. Pterodactilos voando de bruços sob o – teu – sonho.
E tu.
Mais um Blog onde se debitam patetices - umas desinteressantes, outras menos - em forma de pretensão...
Como convém a um Blog.
Quarta-feira, Setembro 28, 2005
Sábado, Setembro 24, 2005
Terça-feira, Setembro 20, 2005
A cor do mar
Domingo, Setembro 18, 2005
Sexta-feira, Setembro 09, 2005
O Corpo de Cristo

Cristo (Goya, 1780)
Atraída pelo proibido e entusiasmada com o poder da transgressão resolvi, um dia (1992), criar uma peça que reflectisse o meu olhar sobre os ícones e os valores defendidos pela Igreja. Chamou-se «Mea Culpa».
Realmente, sem ter tido uma educação religiosa, a minha infância tinha, de algum modo, sido marcada por alguns episódios a que era obrigada a assistir por ser neta do meu avô em Alfândega-da-Fé.
Comecei por me deixar impressionar pela figura de S. Sebastião, padroeiro daquela vila e oferecido pelo Sr. Bailundo (o meu avô). Gostava quando saía pela porta da igreja no dia da procissão. As setas trespassando o frágil corpo nu e o pano escondendo o sexo, mas deixando perceber a mesma sensualidade que transbordava da figura de Jesus. Para aquelas mulheres de véus na cabeça, era pecado, mas eu usufruia da liberdade de imaginar as suas fantasias (que, certamente, lhes valeriam as mais duras penas e penitências) e de as transformar.
Assim, na coreografia que criei, a maçã era naturalmente partilhada ao lanche por um homem e uma mulher, os homens beijavam outros homens e as mulheres podiam amar outras mulheres. As imagens santas eram livremente acariciadas pelos fiéis. O medo do pecado não existia porque o pecado não era pecado; era apenas e tão somente o assumir da «paixão» num sublime estado de tranquilidade e prazer.
O corpo de Cristo era assim... frágil e belo; Nu e de inesquecível desenho contornado pelo calor das nossas mãos. Sensual, mas inatingível.
Quarta-feira, Setembro 07, 2005
Sexta-feira, Setembro 02, 2005
O corpo no feminino

«(...) É pela negativa que o tema se liga a Paula Rego, especificamente, aos quadros sobre o aborto. Começando pelo princípio, tomamos como paradigma a maneira como as mulheres são tratadas e se deixam tratar ao longo da gravidez e no momento do parto, reveladora da estrutura de toda uma relação social com a maternidade. O parto configura-se como o momento fundador e iniciático do estado maternal e da subsequente cadeia de violências, injustiças e humilhações várias que, a partir daí, se sucedem. Tão banais, que já fazem parte do quotidiano, já não nos damos ao trabalho de as nomear, ou seja, de as pensar. Curiosa e muito sintomaticamente, somos muitas vezes nós, outras mulheres, as executoras principais das chamadas pequenas - médias violências.
Quisémos revelar e analisar este paradoxo da violência feita às mulheres mães. A realidade desvendada por esta pesquisa está em rota de colisão perfeita, quer com os cânones consagrados e o estatuto social do papel de mãe, quer com os conceitos contemporâneos de género e condição feminina. É uma nova violência: transversal, em crescimento, tendencialmente perpétua, sintoma de uma autofagia absurda, esquizofrenizante. Encara as mães como seres meramente utilitários e descartáveis, remetidos a funções criadais nos processos de gestação, nascimento e crescimento dos seus filhos. É um fenómeno Político, pois tem tudo a ver com a forma como o Poder e o Estado se relacionam com a Mulher e o seu Corpo. É aqui que nos situamos em Portugal, e nos revemos em Paula Rego: na violência surda, na crueldadezinha, a humilhação, a matança até se for preciso.» (Lúcia Sigalho)
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