Quinta-feira, Outubro 27, 2005

A transparência pode ser imprudente, mas é isenta - II

Angola é grande; Angola tem recursos como poucos países, mas Angola é pobre; Angola soma conquistas, melhoras, é verdade (e temos orgulho), mas Angola espera por uma educação boa para todos os seus meninos e não apenas para os que frequentam e pagam os colégios com dólares. Angola tem clínicas, algumas com competentes sistemas e protocolos com transportadoras aéreas para a evacuação dos casos de gravidade extrema que o exijam, mas em Angola, muitos perdem familiares porque não podem comprar um balão de soro no mercado, porque no hospital para os comuns, não tem.
Em Angola há bons profissionais em todas as áreas, sim. E angolanos. Mas muitos optam pela actividade privada, onde os lucros são maiores. Em Angola uma lata de leite custa 1000 Kz (1kz=90usd) e as farmácias, para além de cartões recarga para telemóveis, vendem uma caixa de aspirinas ao preço que (não) podem imaginar. As pessoas têm de (sobre)viver. E o dólar é que manda. Em Angola há pessoas honestas e que vivem do seu salário. Muitas. Mas o salário mínimo é muito baixo.
Há que ter criatividade, saber entrar no «xkema» para se poder continuar. «Vamos fazer mais como então?», diz-se resignadamente com aquele sorriso que só engana os mais desatentos.
Eu vivo em Angola. Vivi sempre em Angola em todos os passados e todos os presentes. Sou filha da terra e conheço bem a realidade.
Já um dia disse que me custava ler e ouvir o escárnio com que algumas pessoas se referem ao país. Também me irritam as «bocas» atiradas de longe por pessoas sentadas seja em sofás, seja em bancos de pau. Alguns revelam tanto ódio que parece até que se regozijam com os nossos insucessos; Outros, tanta demagogia que até «aleija» (como dizem os miúdos).
Angola não é o inferno da tal anedota, mas está longe de ser o paraíso que aparece nos delírios de alguns. O ideal seria não se exagerar, nem apedrejando arbitrariamente, nem aplaudindo aquilo que ainda pode vir, mas que é tão remoto agora...
... Dizem que o amor é cego, e pode ser... Se deixarmos.

1 comentários:

con_certo disse...

Excelente reflexão. Pura e sensata, mas não cega.
Parabéns!