
«(...) É pela negativa que o tema se liga a Paula Rego, especificamente, aos quadros sobre o aborto. Começando pelo princípio, tomamos como paradigma a maneira como as mulheres são tratadas e se deixam tratar ao longo da gravidez e no momento do parto, reveladora da estrutura de toda uma relação social com a maternidade. O parto configura-se como o momento fundador e iniciático do estado maternal e da subsequente cadeia de violências, injustiças e humilhações várias que, a partir daí, se sucedem. Tão banais, que já fazem parte do quotidiano, já não nos damos ao trabalho de as nomear, ou seja, de as pensar. Curiosa e muito sintomaticamente, somos muitas vezes nós, outras mulheres, as executoras principais das chamadas pequenas - médias violências.
Quisémos revelar e analisar este paradoxo da violência feita às mulheres mães. A realidade desvendada por esta pesquisa está em rota de colisão perfeita, quer com os cânones consagrados e o estatuto social do papel de mãe, quer com os conceitos contemporâneos de género e condição feminina. É uma nova violência: transversal, em crescimento, tendencialmente perpétua, sintoma de uma autofagia absurda, esquizofrenizante. Encara as mães como seres meramente utilitários e descartáveis, remetidos a funções criadais nos processos de gestação, nascimento e crescimento dos seus filhos. É um fenómeno Político, pois tem tudo a ver com a forma como o Poder e o Estado se relacionam com a Mulher e o seu Corpo. É aqui que nos situamos em Portugal, e nos revemos em Paula Rego: na violência surda, na crueldadezinha, a humilhação, a matança até se for preciso.» (Lúcia Sigalho)
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