1974. Começaram os confrontos em Luanda e o nosso liceu transformou-se em acampamento de desalojados e feridos que vinham dos bairros.
Enquanto alguns colegas partiam de Angola com as suas famílias, os que ficavam iam ajudando no que fosse preciso.
Lá íamos todos os dias, apesar dos tiros.
Eu tinha ainda 12 anos. Fui destacada para as enfermarias. Um dia, puseram-me um frasco de álcool numa mão e um pacote de algodão (ou seriam gazes?) na outra. Enquanto o estudante de medicina destapava a ferida de uma mulher que olhava para mim desesperada, ia-me dizendo: põe álcool no algodão, vou ver se ainda cá está a bala. Os olhos da jovem mulher eram pretos e doces, a ferida sobressaía cor de rosa na sua pele negra. Senti que podia desmaiar e passei o que tinha na mão a alguém que estava atento a mim e me mandou sair.
A minha mãe também ia. Pedi-lhe que me «colocassem» noutro lugar e fui parar à cozinha. Mandaram-me descascar batatas e não ficaram satisfeitos com o meu trabalho de menina sem prática nessas lides. Fui novamente mudada. Desta vez para o «posto» certo, a secção das crianças. Levava-as em fila para a cantina e, depois de comerem, brincava com elas, fazia jogos, entretendo-as para não pensarem nas suas mães feridas, mortas ou desaparecidas no meio dos tiroteios.
Às vezes ajudava a descarregar mantimentos que vinham em camiões que entravam pelas traseiras. O jardim continuava lá!...
Haviam-se acabado as aulas de ballet, de piano, as professoras de francês e inglês que iam a casa. As empregadas domésticas deixaram de ir trabalhar e as crianças não podiam ficar sozinhas.
Em tão pouco tempo, vi tudo aquilo a que os meus pais sempre me haviam poupado.
No liceu, aprendi que a vida afinal podia mudar de cenário. No liceu, amadurecia cedo vendo feridos e mais feridos de todas as idades chegar diariamente. Vinham dos bairros suburbanos e eram aqueles que não estudavam, nem punham os filhos a estudar nos liceus...
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