Há tempos tropecei com alguém que, após muitos anos, regressa a uma ex-colónia portuguesa e eis quando senão, para meu enorme espanto, ela começa a «abrilhantar-nos» com descrições contidas num discurso que eu nunca imaginei ser possível numa altura destas; que o povo era limpinho e inteligente, que se comia opiperamente (marisco e etc.) por 1 dólar, que os matakus das pretas eram belíssimos na sua forma de «prateleira», que os mercados eram todos varridos e com os panos no chão engomadíssimos, que os penteados das miúdas eram lindíssimos, que não havia lixo nas ruas, que um certo motorista indígena falava quase correctamente português, enfim...
Lembrei-me então de comentar. Não fui simpática, mas franca (mente!).
Quem não leu os estudos e descrições etnográficos de José Redinha (perante ele me vergo em reverência), de M. Dias Belchior (autor de «Compreendamos os negros»), de J. R. Graça, Henrique Galvão (autor de «Outras Terras Outras Gentes) ou ainda, recuando um pouco mais de Capello & Ivans, Henrique de Carvalho ou Silva Porto, entre tantos outros?
Sem esquecer, Santos Júnior (autor de «A Alma do Indígena através da Etnografia de Moçambique»).
Autores de relatos preciosos e de grande importância, e referências imprescindíveis para diversos estudos sobre o continente Africano são, no entanto, criticados pela antropologia contemporânea dadas as características da linguagem etnocentrista, «reaccionária» (reparem nas aspas) e redutora que utilizam. Compreensível para a época, inconcebível hoje - SÉCULO XXI -, mesmo fora do âmbito Académico.
Compreendo a emoção de alguém que regressa à nossa «África (ex) Minha», passados tantos anos de saudades e desejo de voltar. Compreendo a felicidade de se encontrar um cenário diferente (para melhor?) daquele que se espera.
Mas cair no romantismo das descrições dos séculos passados, mesmo fora do âmbito das Academias... Sinceramente.
1 comentários:
Hoje, em vésperas de partida dei a volta ao meu blog. Parei neste texto para dizer que esta pessoa a que me refiro, apesar de manter as suas descrições românticas de África, deu-se conta de como Portugal havia impedido o desenvolvimento dos povos das suas ex-colónias. É uma atitude a aplaudir, apesar de tudo...
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