
Sentada na sala do piano, a janela aberta para as folhas de uma palmeira adulta, relembro o cenário que durante muito tempo se repetiu vezes sem conta só para mim: o pôr do sol na Xicala.
Estou longe...
Naquele tempo, as seis horas da tarde conduziam-me à cidade alta de onde se pode ver o mar. Sentada no muro escondido sob o vermelho das pétalas daquela acácia que ainda resiste rubra, possuía com os olhos o vento morno enquanto enchia, da luz inigualável do sol que bazava lentamente, os pulmões. Sem qualquer sentimento de culpa, entregava-me aos mais interditos pensamentos: Luanda, seria a eterna cidade encostada no mar; Angola, um país onde a diferença fosse aceite; África, o continente que transcenderia a curiosidade e a cobiça dos “irmãos” povos ocidentais.
Ali, eu fui livre. Ali, fiz e desfiz promessas e juras de irresponsável desejo. Ali, as minhas lágrimas se misturaram com o pó...
Bué de vezes, ali mesmo... Apaixonadamente.
A noite caía, caiu rápido. Sob a acácia onde tantas vezes me despi deixei, para sempre, os mais secretos fragmentos de mim.
2 comentários:
Lindo!
Obrigada, Carrie.
Um abraço
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