Eu andava na escola primária. Era miúda e o tempo era quase cacimbo colonial. Por impossível que possa parecer, a filha do Sr. Eng. e da Sra. Dra era uma das cerca de dez crianças brancas dentre os trinta alunos que formavam aquela turma da Escola 83, na Vilalice. Sim, essa escola sem reboco, nem pintura, os tijolos a aparecerem e com um pátio sem cimento, ou seja, daquela terra que quando chovia virava mesmo poça de lama onde nós experimentávamos o prazer de brincar de sujar as batas, só para dar trabalho às mães e às lavadeiras. E foi mesmo aí, nesse pátio que um dia a professora nos começou a ensaiar algumas canções, porque ia chegar um senhor muito importante da Metrópole. Uma das canções, a mais importante - dizia ela - repetíamos sempre ao sábado de manhã e tínhamos de cantar de pé, ao lado da carteira.
Na véspera da chegada do senhor muito importante, todo o asfalto se preparava para a recepção. Os "bairros" também estavam mobilizados.
Na escola a professora deu-nos umas bandeirinhas verdes e vermelhas com uma bolinha amarela no meio, coladas nuns pauzinhos brancos; com cola Ponal, parece (disso é que não me recordo bem...). O director que batia com aquela palmatória redonda de cinco buraquinhos, veio e avisou que todos deviam ir com os pais ou então podiam concentrar-se na escola para ir de maximbombo (acho que ele falou autocarro e estava a pensar nos colegas cujos pais não tinham automóvel).
Cheguei a casa contente com a minha bandeira verde e vermelha na mão para não amachucar dentro da pasta para onde eu atirava os livros escolares e o estojo de lapis de cor (o caderno ficava na escola dentro de um saco plástico no armário do fundo). Ia a cantarolar a cantiga principal: "... nooobre-pooovo-nação- valeeente...". Mas a minha alegria durou pouco. Antes que eu lhe perguntasse a que horas íamos para o aeroporto receber a tal visita muito importante no dia seguinte, o meu pai pediu-me a bandeirinha e disse que "nós não vamos". Retorqui-lhe que "então eu vou no maximbombo que vai estar na escola".... Então, pacientemente, o meu pai sentou-me a sua frente e explicou-me o que era o colonialismo. Eu era feliz naquela escola, mas acho que a minha felicidade aumentou, pois compreendi também porque é que eu não andava em Colégios como os filhos dos amigos dele e da minha mãe.
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