Terça-feira, Janeiro 11, 2005

Café do desassossego 6 - O meu Carnaval

Cheguei! Para contar sobre o carnaval. Aquele carnaval sem idade que desfila na marginal de Luanda, junto a baía...Mas... Primeiro, vou pedir: "- Por favor, podia ser um sumo de caju? Traga também uma palhinha, se não se importa, pois não posso tirar a máscara. Obrigada."
... Yá, naquela marginal onde passou o Carnaval Colonial, depois começou a passar o Carnaval da Victória. Este era especial, desfilava em Março. A guerra andava por lá, mas brincava-se na mesma. No lugar das insígnias portuguesas, a cara do Agostinho Neto, o verde e vermelho deu lugar ao preto, vermelho e amarelo. O União Operário Kabokomeu aparecia, os kotas antigos vestidos de farda preta, sempre a gozar; de guarda chuvas no chão, rodavam a volta a exibirem as passadas da Kazukuta. As senhoras da ilha continuaram no seu passinho de Semba / Varina a tocar tambor nas bacias do peixe. União Mundo da Ilha, União Kiela, Feijoeiros do Ngola Kimbanda são só alguns, muito poucos, dos grupos que desciam a baixa da cidade. Com eles, a Kabetula e a Dizanda também não deixaram de marcar lugar. Só a Cidrália disse mesmo adeus; nunca mais vi esse estilo... com aqueles trajes de armação rodada em baixo. Cada grupo orgulhoso da sua corte: Rei, Rainha, Príncipe e Princesa, guardas. Coroas grandes, óculos escuros, galões nos ombros, véu branco e leque. Passadas inimitáveis! Exclusivas! Bué de banga! A enfermeira também desfila, a rigor: bata branca, sapatos brancos e malinha branca com cruz em vermelho como no chapéu. Os kandengues vieram junto, a aprender com os passistas mais experientes; União Bebes do Rangel, União dos Kassules do bairro Nelito Soares, e tantos outros. Este carnaval, também foi o Carnaval da Coragem. Os filhos do povo a morrerem na guerra, e o carnaval a expulsar a tristeza cantando-a, com as músicas a lamentarem a devastação de que Angola. Mas estes lamentos engrandeciam a nossa esperança e a nossa revolta, ao mesmo tempo. Mantiveram-nos vivos. Sempre. Cada um se organizava no seu grupo. O Neto morreu, o Zedu começou a aparecer nos panos que enrolavam os mataku das mais velhas e mais novas que gingavam com as blusas de cetim. O céu a ameaçar chuvada. Lindo! Sobre o mar do outro lado da Ilha. O vento já deixou cair um painel que diz: "Às nossas tradições, havemos de voltar". Já era outra vez Fevereiro. E o nosso Carnaval sempre a atravessar o tempo, os presidentes e... a marginal. Até ao porto de Luanda. Hoje, as canções cantaram a paz. Mesmo sem pernas dançámos o carnaval. A muleta ajuda. Se não tiver, não faz mal, faz-se o pino. As nossas tradições estão a mudar, e os que estão a mandar não estão a acompanhar bem a "passada". Qualquer dia ficam no fim do desfile, quando a população cansada já está a regressar a casa e não quer ver mais. Agora que me deixaram contar o meu carnaval, fico mais um "cochito" a aproveitar as dikas das vossas farras.

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