Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

Café do desassossego 16 - Vestido cor de Cinza

Hoje, como de outras vezes, entro no café... mas hoje como poucas vezes, escondo-me na mesa do fundo, longe de todas as outras. Estou cinzenta.Há uns tempos que me recuso a escrever. Há uns tempos que perdi o entusiasmo. Passeio-me por aqui obrigada, numa dependência torpe e olho com desagrado e alguma infelicidade para dentro dos fios em «conversas deste café». Desacho graça como diz o meu querido «Doutor», agora às voltas com outras costuras. Fecho os olhos e, não sou brilhante no que penso; Tricot!... é o que se tem feito demais por aqui. Senão vejamos: abrem-se fios, fecham-se fios, transladam-se fios e gentes enredadas numas páginas e noutras. Inventam-se jardins, colam-se flores, pintam-se mariposas foleiras e pedaços de outras raridades. Cozinham-se intrigas, políticas e devolvem-se picardias e desamores. Vomitam-se dicas, morcelas e delira-se com viagens etílicas em busca do nada deixado. E vai mais um nó para completar a casa. Crochezinho patético!... São duas abertas e uma fechada... de tinto! Recomeça, com uma canção de Jaques Brel. Ah! O amor... Trocam-se olhares, cumplicidades, soltam-se letras inúteis, mas sábias.Olho para os meus jeans e tacteio nos bolsos aqueles pedaços de coisas que fui recolhendo: pedras, nuvens, conchas, estrelas e os cacos (é mesmo preciso reciclar!). Com cuidado, disponho-os sobre a mesa que hoje me parece menos limpa que de costume. Que m e r d a! Será que nunca mais vou conseguir perceber que há dias em que não dá para fazer das tripas coração, digo, das tretas colecção?Levanto-me da cadeira e saio do café. Lentamente pedras, nuvens, conchas, estrelas e cacos deslizam atrás de mim e enchem o café de tudo o que somos. Ao longe, distingo o Pedro Abrunhosa no gira discos quase apagado: ... uma garrafa vazia, um cinzeiro apagado, agarras as palavras... escondes-te no tempo, porque o tempo tem asas, perdes-te comigo porque o mundo é um momento...
Não volto tão cedo.

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